sexta-feira, 19 de junho de 2009

SENA

Parte do espólio que foi doado pela família de Jorge de Sena já está na Biblioteca Nacional de Portugal. Em Setembro, os restos mortais do escritor, que há 50 anos partiu para o exílio no Brasil e nos Estados Unidos, serão transladados para o cemitério dos Prazeres em Lisboa.Agora os estudiosos de Jorge de Sena (1919-1978) podem ter acesso ao espólio do escritor sem terem que se deslocar a Santa Barbara, na Califórnia onde o escritor esteve exilado e morreu.A família e a viúva Mécia de Sena doou o espólio do escritor – de que fazem parte manuscritos, objectos pessoais, obras de arte e a biblioteca do autor – à Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). E o ministro da Cultura disse na cerimónia de apresentação e depósito do espólio, que decorreu hoje à tarde na BNP, que em Setembro os restos mortais do poeta, ficcionista, dramaturgo e professor universitário vão ser transladados dos Estados Unidos para um jazigo “condigno” no cemitério dos Prazeres, em Lisboa. “O meu pai tinha o desejo de ser enterrado aqui um dia e de ter aqui os seus papéis”, afirmou Maria José de Sena, filha do escritor, que considera estar assim cumprido o que desejava o autor de “Sinais de Fogo”.“Isto é um gesto extraordinário depois do que se passou”, defendeu o ministro da Cultura. “É um gesto de civismo e de apaziguamento”. José António Pinto Ribeiro considera que a zanga entre Jorge de Sena e a sua pátria foi “muito para além daquilo que era permitido”. E recordou: “Houve pessoas que se esforçaram por o trazer de volta, mas a verdade tem que ser dita: a seguir ao 25 de Abril poucas se empenharam nisso”.Na sala encontravam-se o general Ramalho Eanes e sua mulher. O ministro agradeceu àqueles que ajudaram o país a fazer justiça a Jorge de Sena e a que se devolvesse Sena aos portugueses através da Biblioteca Nacional.Jorge de Sena é um extraordinário escritor de língua portuguesa, sublinhou. “Quando conhecemos a obra e a vida de Sena só podemos agradecer-lhe pelo que ele escreveu e por ele ter sido quem foi.”O espólio ainda não está completo Alguns dos papéis que fazem agora parte do espólio já tinham sido enviados ao longo de anos dentro de malas para Portugal. Esse era o conteúdo das cerca de sessenta caixas que se encontravam em depósito na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A essa parte do espólio do autor de “Sinais de Fogo” juntaram-se quatro caixas que vieram agora dos Estados Unidos e nos próximos meses mais chegarão a Lisboa.Da biblioteca do escritor já se encontram em Lisboa os títulos de literatura brasileira e africana de expressão portuguesa, embora não estejam expostos na mostra bibliográfica, que até 31 Julho estará na sala de referência da Biblioteca Nacional.Um barco de metal que inspirou o poema com o mesmo título é um dos objectos que já podem ser vistos nas vitrinas da exposição na Biblioteca Nacional. Deverá ter sido comprado em Santos onde o escritor esteve entre 22 e 28 de Novembro de 1937 durante uma viagem do Navio- Escola Sagres. Estão lá também a sua espada de cadete de Marinha e a carta em que prepara a família para a sua demissão da Marinha de Guerra, as alianças de casamento, treze cadernos que incluem poemas (que escrevia com caneta de tinta permanente e cujos títulos ele sublinhava a vermelho), contos, uma peça de teatro e outros textos. Também lá estão os “Diários e recordações da vida literária”, o manuscrito dactilografado de “Sinais de Fogo” e a edição do livro “Coroa da Terra – poemas de Jorge de Sena” com a dedicatória “À Mécia de todo o coração” junto a uma rosa seca que se encontrava dentro do livro e ainda muitas cartas, conferências, comentários a filmes, postais com imagens de artistas de cinema que serviam de ficha para os filmes que Jorge de Sena via.Do espólio fazem ainda parte o passaporte, fotografias de família, uma alfineteira de penas que comprou para Mécia em Dundee, um postal com a imagem do quadro de Goya que enviou para a “filhotada Sena” e onde escrevia “.... este quadro... serviu para una poesia que eu escrevi há anos pensando em vós”. E, por fim, uma caixa de chocolates e rebuçados que foi dada a Mécia de Sena nas vésperas da partida para o Brasil. “Dentro levei, no meu saco de mão, uma carta escrita e que me foi entregue pelo Dr. Bandeira de Lima, para o general Delgado, no qual lhe dizia que não era oportuna qualquer tentativa de regresso a Portugal...”, explica junto ao objecto uma legenda. Para completar o espólio doado à BNP, falta ainda chegar a Lisboa um grupo de obras pertencentes à sua colecção de arte privada. Aí se incluem obras de Dominguez Alvarez, António Dacosta, Vespeira e Bartolomeu Cid dos Santos, (datadas de 1940, 1950 e 1960) e uma pintura de José Augusto França."



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