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segunda-feira, 9 de julho de 2012

O QUARTO DA ALVA...nos Fuzos


Exmo Senhores membros da mesa
Caro Comandante Patrício Leitão
Saiba que é com todo o orgulho que aqui apresento a sua obra, espero estar à altura do desafio que me propôs.
Exmo Senhor Dr. Baptista Lopes
Não é a primeira vez que compartilhamos esta mesa, e o que retenho é a disponibilidade da sua Editora para acolher estes projetos de fuzileiros, fato que faço questão de aqui sublinhar.

Caros fuzileiros do DF8

Ilustres convidados

Esta é, desde a minha presença no Corpo de Fuzileiros, a terceira vez que sou chamado a apresentar uma obra literária. Assumo a responsabilidade do cargo que desempenho para abraçar esta exigente missão.
Não me reconhecendo com dotes de um crítico literário, sempre entendi que jamais seria de regatear a colaboração a um fuzileiro que pretende falar de fuzileiros.
Depois da Guiné e de Angola, agora com Moçambique como pano de fundo, uma curiosidade interessante em termos do meu curriculum, mas, sobretudo, o acervo de memórias que se vai conseguindo nos tempos mais recentes, contadas na 1.ª pessoa.

De Moçambique, a nostalgia de ouvir falar em lugares onde um percalço da vida acabou por me dar a oportunidade de conhecer, nos anos de 1973/74: Vila Cabral, Meponda, Metangula, Nacala, Nova Freixo, Marrupa, Ilha de Moçambique, Tete, terra onde fiz jura de não morrer sem lá voltar.
A recordação dos aerogramas e da revista Plateia, sintoma de que estarei eu na fronteira daqueles que cresceram e viveram nestes tempos e doutros a quem isto nada diz.

O Comando Naval Avançado em Nampula, a 200km do mar, cidade onde estudei antes de entrar na Escola Naval e onde senti o embate do desafio de ir à praia a Nacala com a naturalidade que se vai de Lisboa à Caparica.
Enfim, o prazer de percorrer estas linhas nas quais me sinto a viver com as cores e odores que só África tem.

Trata-se de uma obra a dois tempos, duas vagas de assalto: uma primeira de fuzileiro, a conquistar a praia, uma segunda de técnico de hidrografia que estuda correntes e marés, estuários e praias. Da segunda parte já houve uma apresentação, ficando guardada para hoje aquela que aos fuzileiros diz repeito.
A desvantagem de ser um “segundo lançamento”, sem o envolvimento nobre do pavilhão das Galeotas, prejudicando o autor com uma apresentação menos erudita, mas com um envolvimento humano mais próximo, menos formal, entre camaradas de armas. Não sei se menos digno, mas seguramente não menos caloroso.

No final da guerra de África vimos aqueles que ali combateram serem abandonados ao esquecimento, quase culpabilizados de apenas terem cumprido o que lhes era pedido, com armas na mão. Mortos ao serviço da Pátria, feridos, para sempre com marcas daquele tempo passado em condiçoes de extremo sacrifício.
Quem sabe envergonhados, estes heróis recolheram-se ao silêncio, procurando sublimar aquilo que nem eles percebiam o que teriam feito de mal.
Volvido meio século, aos poucos, sentiram a necessidade de contar as suas memórias, sentiram que tinham de expiar fantasmas, certos de que a justiça, pelo menos a moral, vingaria.
É neste período de fertilidade que vivemos, um manancial de informação daquele lapso de tempo que chamou às fileiras um milhão de jovens.

Um dia, os Historiadores filtrarão emoções, compararão pontos de vista, estudarão o ambiente envolvente. Seguindo métodos científicos, tirarão ilações, alinharão os fatos, e escreverão um memorável capítulo nesta História de fuzileiros que leva já 4 séculos.

Sinto-me compelido a, neste momento, chamar o Comandante Lhano Preto, digníssimo presidente da Associação de Fuzileiros, que daquelas paragens do Niassa guarda uma história única de que aguardamos a sua memória escrita. Não pense, caro Comandante, que deixou de receber tarefas do Corpo…

De um camarada, fuzileiro, historiador, particular amigo, ouvi um dia que se havia dedicado ao estudo da História para melhor compreender os homens (Semedo de Matos). Partilho desta abordagem, e é neste envolvimento que sempre pego em relatos históricos. Foi com este estado de espírito que abri o “Quarto da Alva”.

Avancemos então para a obra…
Alva:
“Aspeto da madrugada logo que o horizonte se torna alvo, com a aproximação do Sol; alvura que se eleva pouco a pouco e se espalha pelo céu. É uma luz suave sem cores vivas que não cansa a vista. Logo que a alvura se matiza com a cor azul escura, rósea purpurina, começa a aurora. É a primeira luz da madrugada.”. Assim a define António Marques Esparteiro.

Não o “tenebroso quarto da alva no mato” (e citei o autor), debaixo de uma trovoada africana, sob um ataque de mosquitos, mas o momento do dia onde, com a chegada da claridade, parece o organismo acordar para mais uma aventura que é o dia a dia da vida.

Sublinho a curiosidade de ver ligado ao título do livro a proliferação de operações do DFE 8 com nomes de estrelas: Antares, Arcturus, Sírius… Sendo o crepúsculo matutino o período que medeia entre o desaparecer das estrelas de 1.ª grandeza e o nascer do Sol, parece-me bastante adequado a sua correlação com a Alva que dá nome à obra.

Da introdução, aparece a motivação da escrita – deixar um testemunho; questiona-se a sua legitimidade, como se tal fosse necessário, e explica-se a aventura do mergulho nas artes e nas letras. Em boa hora, digo eu.

Estamos perante um relato emotivo, vibrante, intercalado com outras vivências: Paris, namoradas, momentos de ócio, o Maio de 68, o Woodstock.
A viagem no paquete Império.

A pastelaria Princesa, seguramente muito importante face à ênfase da sua alusão, a guerra urbana num mini a fugir de 2 assaltantes, com tiros e uma namorada mulata…

A guerra vs. a vida nas grandes metrópoles, sossegada, e o alheamento que aquelas gentes viviam do sofrimento passado algures bem longe.
Aqui e ali uma avaliação política do conflito que então grassava. A liberdade de expressão do autor.

A referência a muitos nomes que aqui se vêm retratados neste ou naquele episódio: Alpoim Calvão, Ferrer Caeiro, Roboredo e Silva e outros “anónimos” do leitor comum, nomes e alcunhas de camaradas registados para a posteridade e que aqui se verão referidos. E o tenente Virgílio Ferreira, que não conheci, mas de quem as histórias chegaram aos dias de hoje.

Cenas pitorescas como a do cozinheiro a repelir um ataque como vingança ao seu forno destruído pelo inimigo, parecem amenizar, pela comicidade, aquilo que ali se terá passado.

Enfim, um encadeado de episódios onde se sentem as emoções vividas com 20 anos, com gentes e climas diferentes dos que até ali se conheciam, trocando a vida citadina ou da pacata aldeia por uma incerteza do dia a dia, passado entre o silvar dos tiros e a angústia de um pé colocado no sítio errado. As memórias de amizades conquistadas em torno da camaradagem de quem luta ombro a ombro.

A vivência dos tempos da Escola de Fuzileiros, a memória do Ferraz num barracão adaptado a ginásio! (Das poucas melhorias desde então ali verificadas, registo a justíssima homenagem ao saudoso professor de boxe ao ali deixar uma placa com o seu nome.)

A formação em fuzileiro especial, a confiança, a lealdade, a memória do batismo de fogo. A fome, a sede e o calor e o reconhecimento do valor da preparação tida.

As emboscadas, as minas, a responsabilidade pelos homens que comandava “… quanto peso pela responsabilidade duma decisão já irreversível e por outro lado quanta vontade de resolver a questão e sair dali depressa, consciente que essa era uma reflexão que já não podia partilhar com qualquer dos meus homens.”, citei.
O prazer de uma refeição soberba de salsichas com ovo estrelado e batatas fritas depois de mais uma missão.

O êxito da operação Antares onde um Grupo de Combate de fuzileiros é anunciado pela propaganda inimiga como um batalhão que causou mais de 2 dezenas de baixas. Sabendo que as derrotas são sempre minimizadas pelos perdedores, dará para perceber o impacto desta operação.

A comparação da cumplicidade vivida no seio do Destacamento com aquela que se conhece da exiguidade da Câmara de Oficiais dos navios. Talvez aqui o elo de ligação entre as duas partes do livro, o botão de âncora como elemento comum.

A constante referência ao Comandante do Destacamento como um exemplo a seguir, e o sentimento de missão cumprida ao constatar que no final da comissão, e cito, “tínhamos conseguido montar uma autêntica máquina de guerra, quase devastadora, mas simultaneamente humanizada… temida pelo adversário.”.

O regresso no Niassa, quase que daria para adivinhar que não poderia ser noutro navio, mas com a triste recordação de faltarem alguns dos que haviam feito a viagem de ida!

Não resisto a reproduzir o relato de alguns aspetos que, passando-se há 50 anos, nos parecem tão próximos:

A abordagem à atuação dos fuzileiros longe da água; O reconhecer da existência de verbas inadequadas que o Estado afetava à guerra e aos miseráveis vencimentos; A referência ao fato de nem de um bote Zebro operacional dispor; O relato de, a determinada altura, a sul do paralelo de Montepuez, oficiais e sargentos deixaram de ter direito a subsídio de jantar permitindo, e cito: “economizar umas coroas ao Ministro das Finanças”. Repito, trata-se de referências com 50 anos.

É importante a geração mais nova e outros de memória mais desgastada tomarem conhecimento que sempre houve carências e dificuldades e que nunca faltou vontade ou capacidade de as superar.

Caro Comandante Patrício Leitão, espero que de alguma forma tenha conseguido despertar os presentes para a leitura da sua obra, e que dela retirem o mesmo prazer de quase se sentirem a viver as aventuras do DFE 8 nas longícuas terras do Niassa.
Muitos parabéns pela coragem de pegar no papel e caneta e ousar deixar-nos esta memória que mais do que sua é património dos fuzileiros.

Disse

Nota:Foto Comandante G.Allen

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