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segunda-feira, 4 de março de 2013

O SEU A SEU....


Caro José Ribeiro: (Director do Jornal de Angola)

Tomo a liberdade de lhe dirigir esta carta aberta na sequência do artigo que assinou no espaço "Palavra do director", do "Jornal de Angola", na edição de 27 de Fevereiro, intitulado "Alvos selectivos", precisamente na sua qualidade de director.
E tomo esta liberdade porque o referido artigo me provocou uma profunda perplexidade, tanto nos termos como no conteúdo. Antes de mais, deixe-me que lhe diga que há um ponto em que estou em perfeito acordo consigo. A revelação pública de que altos dignitários angolanos, o último dos quais o PGR, estão a ser investigados pela justiça portuguesa, por suspeita de fraude e branqueamento de capitais, constitui uma lamentável violação do segredo de justiça. Uma violação que deve ser dirimida, tanto pela justiça dos dois países como através dos canais diplomáticos. Uma violação que deve ser também investigada, para se perceber se por trás dela se esconde alguma estratégia insidiosa que visa atentar contra o bom nome dos visados.


Dito isto, caro José Ribeiro, a sua "Palavra do director" parece-me manifestamente exagerada e mais talhada para promover o ódio. Quando defende retaliações, terá a perfeita consciência de que está a vulnerabilizar os elos mais fracos desta cadeia – os portugueses que vivem em Angola e os angolanos que vivem em Portugal. 

Como viveu em Portugal e foi adido de imprensa da embaixada de Angola em Lisboa, tem o dever de consciência de saber distinguir as coisas. Tal como tem o dever de saber que a imprensa é livre, que os jornalistas têm as suas fontes e que a notícia do "Expresso" sobre o PGR é verdadeira, ou seja, que o Ministério Público promoveu mesmo essa investigação.

Depois, caro José Ribeiro, sugere o fim dos investimentos angolanos em Portugal. E fá-lo de uma forma acintosa: "um país que valoriza lixo humano como se fosse oiro de lei não tem condições para receber um euro sequer de investimento. Quem promove bandidos a heróis não é de confiança." Ora, parte do pressuposto, que estes investimentos emanam de um decisão colectiva, em vez de terem subjacente uma lógica empresarial. Parece-me errado e a este propósito permita que lhe cite o discurso feito por José Eduardo dos Santos a 25 de Janeiro deste ano, na 6.ª sessão ordinária do comité central do MPLA. "Numa altura em que no nosso país se consolida a economia de mercado e se afirmam, cada vez mais, grandes proprietários e detentores de capital, alguns dos quais membros do nosso partido, é importante que se clarifique o nosso pensamento político", afirmou o Chefe de Estado. Ou seja, deixe que seja a economia de mercado e os seus protagonistas a decidirem se querem, ou não, investir em Portugal. 

Caro José Ribeiro. Uma última nota. O seu artigo azedo serve mais a estratégia dos ortodoxos, tanto em Portugal como em Angola. E estes ortodoxos julgam que ganham com a divisão e os atritos. Por isso, peço-lhe, não os alimente com as suas palavras. Afinal, basta seguir o ponto de vista que o próprio "Jornal de Angola" subscreveu a 6 de Fevereiro deste ano, num editorial não assinado: o que está em jogo nas relações entre os dois países "é tão grandioso que os pequenos acidentes de percurso, as atitudes disparadas com acrimónia por sectores da política portuguesa, as faltas de respeito e as deslealdades que prosperam em Lisboa contra Angola e magoam, não vão conseguir destruir a nova relação que nasceu com o 25 de Abril de 1974".

Atenciosamente,

Celso Filipe(subdirector do Jornal de Negocios)

Lisboa, 1 de Março de 2013

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