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quinta-feira, 1 de maio de 2014

MUITO INTERESSANTE

COM A DEVIDA VÉNIA


Se o "cadete 123" de Abril for General de hoje, aqui fica um pedido meu.
Näo vou imiscuir-me nas comemoracöes da data; mas, recordo-a com saudade, porque foi no primeiro dia do mês de Maio de 1974 que milhares de Portugueses engalanaram suas janelas para saudarem as centenas de milhar homens, mulheres , velhos e jovens que delas viram desfilar, livres, gritando sem censura e cantando sem riso encomendado para festejar o novo e importante feriado que Portugal passou a ter no seu calendário.
Ficaram registadas imagens poderosas que correram mundo e retiraram dúvidas aos que hesitavam em reconhecer a bondade do Movimento das Forcas Armadas; imagens de alegria expontânea confortando os militares que dias antes já tinham recebido enorme apoio popular quando decidiram percorrer o caminho das incertezas caracteristicas de qualquer pronunciamento com armas; imagens que näo se repetiram porque as estratégias dos políticos fizeram que elas ficassem unicas no seu esplendor e significado.
Observei parte do desfile de uma janela a meio da Avenida Almirante Reis. Era de novo, ajudante de campo do reinstalado General CEMGFA Costa Gomes do qual registei palavras ditas para quem o rodeava "... estamos a assistir ao enterro do regime...esta alegria conforta-me...ainda temos tropa em três frentes...näo há retiradas faceis...a enormidade dos problemas a complexidade das solucöes e a pressa dos politicos assustam-me...".
Compreendi bem o homem com quem tinha vivido os ultimos sete dias desde o pequeno almoco até ao jantar tardio. Contráriamente ao que com ele tinha vivido antes do pronunciamento, näo houve dois dias iguais, agendas da semana ou planos para o próximo mês. Tudo acontecia revolucionáriamente a uma velocidade dificil de moderar.
Cedo, na manhä do dia 25 de Abril, ambos à paisana, fomos ao laboratório do Hospital junto à Basilica da Estrela onde a esposa do general entregou provas e onde confirmei a presenca de um "pelotäo" de garbosos cadetes da Academia Militar entre os quais, de acordo com instrucöes na véspera recebidas do Capitäo Costa Martins, estaria um "cadete 123" com o qual eu deveria entrar em contacto se ao nascer do dia notasse qualquer movimento anormal de polícia ou GNR próximo de nós. Estes andaram por outras bandas e eu näo tive que retirar anonimato a um cadete de Abril.
Ultrapassado o período clandestino, vencidas as dificuldades junto à Praca do Comércio e Largo do Carmo, foi uma alegria ver chegar 3 capitäes armados a quem passei a responsabilidade de escoltarem o General para a Pontinha onde a noite tinha caído. Comecou a maratona de discussöes que antecederam a proclamacäo da Junta e continuaram pela madrugada fora para ultimar o documento que seria publicado como Programa do MFA.
Na manhä seguinte, acompanhei o tenente-coronel Franco Charais até à Cova da Moura onde ele com a autoridade de membro da Comissäo Coordenadora foi dizer quem mandava aos que ainda tinham duvidas e fez assentar o pó que ainda se via em muitos corredores e gabinetes. Senti algo estranho ao reabrir portas cujas chaves tinha sido obrigado a entregar há 45 dias. Os membros da Junta chegaram pouco depois. O "PREC" comecou.
A Junta instalou-se e a azáfama também.
Desde velhos camaradas do reviralho em grande uniforme mostrando regozijo aos que näo se conformavam com especulacöes porque estiverem no momento errado em sítio errado àquelas portas todos queriam ter acesso. Oficiais generais eram convocados para saberem de suas exoneracöes, gente nova aparecia para ir representar o MFA em ministérios, instituicöes e companhias das quais os telefonemas se multiplicavam com entusiasticas solicitacöes. Os politicos do futuro mostraram-se, uns mais conhecidos do que outros com os históricos a chamar uma multidäo de gente da imprensa, rádio e televisäo livres. Os adidos militares estrangeiros de antes vieram com discurso diferente, banqueiros de semblante carregado näo foram poucos, empresários com candura nova näo faltaram, familiares da secreta em pânico näo ficaram sem respostas, cartas e mensagens eram aos milhares, curiosos anónimos näo se cansaram dia após dia de oferecer mimo aos soldados que guarneciam os blindados e protegiam quem dentro do Palácio da Cova da Moura fazia o que podia para decretar em beneficio de um Povo livre...
Coleccionando a minha memória daqueles dias:
- surpreendeu-me a troca de lugares entre os generais Spinola e Costa Gomes no topo da Junta;
- admirei a serenidade com que o Professor Jacinto Nunes acolitado pelo tenente Rosário Dias geriram de uma secretária de canto durante dias sem descanso as financas de Portugal e das suas Colónias;
- impressionou-me a firmeza de Champalimaud a entrar nos gabinetes onde os generais näo lhe davam boas noticias, firmeza que mantinha à saída;
- fui cativado pela profundidade do olhar, a delicadeza de palavra e fino trato de Álvaro Cunhal;
- a maior alegria foi saber que tinham sido libertados todos os presos políticos;
- o momento mais dificil foi enfrentar o General Bettencourt Rodrigues, preso na messe de oficiais da Base Naval do Alfeite a fim de lhe apresentar os cumprimentos do General Costa Gomes e oferecer préstimo;
- o que mais me irritou foi uma manifestacäo onde uma centena de MRPP's aproximando-se dos blindados e tropas que guardavam o Palácio da Cova da Moura gritavam "nem mais um soldado para Angola". Uma atitude irresponsável que mostrava ignorância da gravidade dos efeitos de deficiente rendicäo das tropas que poderia pôr vidas em risco.
- o que mais me incomodou foi ter que acompanhar o director da DGS Säo José Lopes no aeroporto da Portela e assim poder presenciar o seu regresso a Luanda.
Apesar de tudo, sentia-me, livre , feliz e confesso com uma ponta de orgulho por ter conseguido fazer alguma coisa para que a Utopia o deixasse de ser.
Agora é tempo de interromper chamadas à memória.
Näo quero terminar sem pedir ao "cadete 123" que näo tive felizmente necessidade de comprometer e que hoje pode ser General para näo deixar caír o testemunho de Abril de 1974 e näo permitir a visita de fantasmas de um regime que foi enterrado e assim tem que continuar para sempre.
Limhamn, Suécia, 1 de Maio de 2014

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