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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O COMANDANTE

COM A DEVIDA VÉNIA


De: Carlos Varanda [mailto:varanda.carlos@gmail.com] rta-feira, 1 de Outubro de 2014 15:05
Para: PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA; PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA; PRIMEIRO MINISTRO; MINISTRO DAS FINANÇAS; MINISTRO DA ECONOMIA; MINISTRO DA JUSTIÇA; TRIBUNAL CONSTITUCIONAL; PGR; PROVEDOR DE JUSTIÇA; TRIBUNAL DE CONTAS; MINISTRO DA EDUCAÇÃO; MINISTRO DA SOLAR. E SEG. SOCIAL; MINISTRO DA SAÚDE; MINISTRO DOS NEG. ESTRANG.; MINISTRO DA DEFESA NACIONAL; MINISTRO DA AGRICULTURA
Cc: GRUPO PARLAMENTAR DO PSD; GRUPO PARLAMENTAR DO PP; GRUPO PARLAMENTAR DO PS; GRUPO PARLAMENTAR DO BE; GRUPO PARLAMENTAR DO PCP; GRUPO PARLAMENTAR DE OS VERDES; Mário David; Cidadania Pro Activa; Imprensa Europeia (PT); REUTER PORTUGUESA; ces.portugal@ces.pt; UGT; cgtp@cgtp.pt; Rui.Riso@sbsi.pt; sedes@sedes.pt; Assoc. 25 de Abril; contacto@siconline.pt; director@expresso.impresa.pt; Jornal EXPRESSO; internet@cmjornal.pt; online@rr.pt; antena.aberta@rtp.pt; discursodireto@tvi.pt; opiniao@publico.pt; Visão; visao@news.impresa.pt

Assunto: Fwd: A. Calvão

"Faleceu esta manhã, em Cascais, o Grão-Capitão do Mar e Terra, Guilherme de Alpoim Calvão.
Herói Português. Simplesmente.
Combatentes em APRESENTAR ARMAS!
Que o Senhor o receba no Reino dos Justos.
Brandão Ferreira
PS. O corpo segue para o Mosteiro dos Jerónimos dia 1/10/14, pelas 17:00
Missa 11:00 do dia seguinte; funeral para cemitério dos Olivais.
Infelizmente MORREU UM GRANDE PORTUGUÊS, daqueles que Portugal se Orgulhará de ter tido como FILHO mas, "Infelizmente anda por aí uma pandilha que tudo lhes serve para apagar da memória colectiva, este como muitos outros que se vão "da Lei da Morte Libertando". Tristeza deste pobre País de oportunistas!" (Este texto, que subscrevo na íntegra, foi copiado do 1º Comentário a este Artigo).
Esta actual gentinha de Políticos e Governantes que desde há 40 anos infestam Portugal, nem imagina o que é ser HOMEM INTEIRO, MILITAR, COMBATENTE, HERÓI, por nem saberem o que é o SERVIÇO MILITAR que tanto andaram que conseguiram extinguir por razões várias vezes explicadas e nenhuma HONESTA, prosseguindo para a QUASE EXTINÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS, cujos únicos riscos que actualmente poderão correr são ESPETAR A LÍNGUA COM O GARFO, ENTALAR A MÃO NA TAMPA DA SANITA OU ENGASGAREM-SE COM A QUANTIDADE DE DINHEIRO QUE TÊM ROUBADO E ESBANJADO, Perfilem-se em Posição de Respeito perante este HOMEM QUE TEM MAIS VALOR MORTO DO QUE A PANDILHA TODA AINDA VIVA, infelizmente. INCOPIÁVEL, ESTE HERÓI NACIONAL MERECE, POR ALTÍSSIMO MÉRITO, DESEMPENHO COMO MILITAR COMBATENTE, ARRISCANDO A PRÓPRIA VIDA, FIGURAR NA GALERIA DOS GRANDES PORTUGUESES. EU SEI QUE HOJE, REAL E HISTÓRICO, SÓ OS ARROTOS E LIBERTAÇÃO DE GASES INTESTINAIS, TALVEZ UMA OU OUTRA LEVIANDADEZECA DA POLITICAGEM MAS, NUNCA SERÁ A BAIXÍSSIMA MENTALIDADE INTERESSEIRA DOS POLÍTICOS QUE CONSEGUIRÁ APAGAR DE LADO ALGUM E MUITO MENOS DA HISTÓRIA, A QUEM PORTUGAL DEVE MUITO DA SUA EPOPEIA MUNDIAL. SAUDEMOS OS NOSSOS HERÓIS. PARA ESTE QUE INFELIZMENTE NOS DEIXOU: SENTIDO! OMBRO ARMAS! APRESENTAR ARMAS! ATÉ SEMPRE, SENHOR COMANDANTE!!!

Alpoim Calvão, honra e dever (escrito alguns meses antes do seu falecimento)
BRANDÃO FERREIRA

Nós temos a ideia, quando falamos nos heróis nacionais, que são figuras do passado, ocorrendo-nos de imediato à memória os nomes de Gamas, Albuquerques e Cabrais. Mas não nos ocorre, por norma, que entre os contemporâneos também existem vários heróis e o Comandante Calvão é, seguramente, um deles.
O Comandante Alpoim Calvão
nas comemorações do 10 de Junho de 2011.
Foto de Humberto Nuno de Oliveira
Infelizmente os nossos heróis das últimas campanhas ultramarinas – enfim com a excepção do que se passou na fase final no Estado da Índia – foram, lembro e afirmo, as mais bem conduzidas desde que os portugueses puseram pé em Ceuta, em 1415, não têm colhido a simpatia dos próceres desta malfadada III República.
Não só os têm ignorado acintosamente, como até os subalternizam relativamente a desertores, traidores e outra gente de mau porte, numa inversão de Princípios e Valores Morais a todos os títulos reprovável e inaceitável!
Não é, pois, na ignorância, incompetência e em apostas erradas que devemos procurar as principais causas da “crise” em que o país se afundou. Ela tem no desnorte moral e político, o seu alfa e o seu ómega.
Não pretendo falar, nem isso seria possível, sobre todos as minudências da vida do oficial de Marinha mais condecorado, ainda vivo, mas gostaria de fazer sobressair alguns dos aspectos mais relevantes do todo.
Alpoim Calvão não se limitou a uma postura defendida por esse outro grande português e militar, chamado Mouzinho de Albuquerque – de que A. Calvão é admirador – “aproveitar na vida e na guerra as ocasiões e cair – lhe em cima como o milhafre sobre a presa”. Alpoim Calvão ia mesmo à procura das ocasiões.
Foi sempre ao encontro da vida, nunca esperando que a vida fosse ter com ele…
A sua origem transmontana talhou-o pela rudeza do clima e da Geografia.
Nos pais – ainda não havia a moda dos progenitores masculino e feminino, muito menos a esdrúxula teoria do “género” – encontrou o esteio referencial para a vida: mais a integridade e a probidade, por parte do pai e o humanismo e a sensibilidade cultural, do lado materno.
A adolescência passada em Moçambique abriu-lhe os horizontes dos grandes espaços e a convivência natural de diferentes culturas, religiões e etnias. Não lhe restaram quaisquer preconceitos neste âmbito.
Algumas amizades e mestres, e uma família estruturada fizeram Alpoim Calvão passar uma adolescência equilibrada, como equilibrado foi a ultrapassagem das dúvidas e novidades que esse tempo traz à vida dos humanos.
Fica-lhe, ainda, a atracção pelo mar, pela natureza, pela música e pelos livros. Foi essa atracção pelo mar que o levou a entrar na Escola naval, em 1954, depois de um ano de preparatórios na Escola do Exército, onde fez amizades para a vida e de onde saíram uma plêiade de homens que a História não deixará de assinalar, nem todos, porém, pelos melhores motivos.
É promovido a 2.º Tenente, em 1957, e casa no ano seguinte, com Maria Alda, sua companheira de toda a vida a quem gera quatro filhos. Aqui também se aplica o velho aforismo de que “por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”. Uma espécie de alma gémea que o complementa e lhe cobre a retaguarda. A partir daqui a sua vida é uma vertigem, cheia como um ovo e o seu nome poderia ter mudado para Alpoim Indiana Calvão Jones!...
Alpoim Calvão na Guiné
Uma vida de filme
Acompanhem-me, pois, neste pequeno filme da sua vida – que daria, aliás, vários filmes em Hollywood.
Começou por andar embarcado na Marinha de superfície para logo, em 1959, ser seleccionado para ir a Inglaterra frequentar o exigente curso de mergulhador sapador, vindo depois a exercer as respectivas funções e a organizar o 1.º curso do género, na Armada.
Em 1962 vai frequentar o curso de submersíveis, mas a ideia de Alpoim Calvão era a de combater em África, na guerra que nos tinha sido movida do exterior com a ajuda de alguns que o Épico acusou “E dos portugueses, alguns traidores houve, algumas vezes”!
Alpoim entendeu que, como mergulhador e submarinista não teria oportunidade de satisfazer o seu desejo, pelo que se ofereceu para os fuzileiros, especialidade em boa hora renascida pela mão do Ministro Quintanilha e Mendonça Dias.
Frequenta o nono curso, entre 3/8 e 5/10/1963, após alguns contratempos – aliás contratempos, dificuldades, invejas e oposições, foram uma constante na sua vida, mas nunca o fizeram esmorecer – e oferece-se, de seguida, para uma comissão na Guiné, onde chega a 4/11/63, comandando o Destacamento de Fuzileiros Especiais 8 (com 75 homens), que viria a ser considerado uma das melhores unidades em todo o conflito.
Onze dias depois da chegada tem a sua acção de fogo, mas só entre 25 e 29 de Novembro, entra em combate pela 1ª vez, na “Operação Trevo”.
A “Operação Tridente”, uma das maiores operações em toda a guerra nas três frentes, que durou 66 dias, marca o amadurecimento operacional do 1.º Tenente Alpoim Calvão e onde a sua unidade sofre as primeiras baixas.
Foi á frente do DF8 que o prestígio de Alpoim Calvão como chefe e combatente de eleição se firmou. Começou a lenda, mas uma lenda viva, palpável, verdadeira.
Os autores do livro contabilizaram 47 operações realizadas, 92 acções de fogo, 146 mortos confirmados, ao Inimigo e 38 prisioneiros; 89 embarcações e 1600 palhotas destruídas e 46 armas, apreendidas. Toda esta actividade custou ao DF8 quatro mortos e 31 feridos. Contabilizou-se a atribuição de: Uma cruz de Guerra de 1.ª classe colectiva (a 1.ª vez que uma unidade da Armada era atribuída tal condecoração, desde a 1.ª Guerra Mundial) e dois louvores colectivos; Quatro promoções por distinção; 54 louvores individuais; Uma medalha de Valor Militar, ouro; Duas cruzes de guerra de 1ª classe; três de 2ª; quatro de 3.ª e 11 de 4.ª; 15 Medalhas de Mérito Militar. Regressaram a 30 de Outubro de 1965, e o CEMA foi a bordo cumprimentá-los.
É colocado, então, na Escola de Fuzileiros, em Novembro de 1965, sendo promovido por distinção a 23 desse mês. No 10 de Junho seguinte, recebe das mãos do Presidente de Conselho de Ministros, a Medalha do Valor Militar com Palma.
Visita os três teatros de operações, por várias vezes, a fim de melhorar a doutrina de emprego táctico às realidades e a reformular o ensino e treino na escola onde agora era instrutor, e onde viria a ser Director de Instrução, em 1967. Remodela esta e melhora as instalações.
Inicia a sua actividade de escritor e articulista, no “Jornal de Notícias” (revela-se, também, uma boa pena), e frequenta o curso de promoção a oficial superior no ISNG.
Por uma questão menor é punido pelo Ministro da Marinha – por quem, aliás, tinha grande estima – e abandona o cargo, em 21/2/1969, para ir cumprir segunda comissão na Guiné.
Ocupa, então, vários cargos e funções de oficial superior, mas nunca abandona o contacto com a actividade operacional.
As suas acções são inúmeras e todas notáveis – Calvão deixa sempre a sua marca em tudo o que toca – em que cabe referir a criação do primeiro DFE africano, o 21, a 21/4/1970.
Uma pequena acção de antologia, até pelo seu ineditismo, ocorreu na “Operação Nebulosa”, em que montou uma emboscada na fronteira marítima com a Guiné Conakry, na qual realizou um ataque com botes, que incluiu abordagem e tomada de uma lancha do PAIGC, de seu nome Patrice Lumumba – um conhecido filantropo, como sabem…
Fez lembrar Fernão Mendes Pinto ao relatar um combate com piratas chineses, no Sul da China, escreveu ele: “E com muitos Padres-nossos e pelouros, a eles nos fomos, e matámo-los a todos num Credo”. Abençoada gente! Foi o sucesso deste evento que espoletou a operação “Mar Verde”.
No meio da sua intensa actividade ainda arranjou tempo, energia e saber, para tirar o curso de piloto particular de aeronaves, tendo pilotos da FA como instrutores e feito exame na delegação da Aeronáutica Civil de Bissau.
Muito mais tarde, em Tires, instruiu uma das filhas nesta “arte”, filha que é hoje piloto comandante numa empresa de transportes aéreos.
Sem embargo esta última comissão veio a ficar indelevelmente marcada por esse feito maior, que foi a operação “Mar Verde”, em 22 de Novembro de 1970, que Alpoim Calvão idealizou, planeou e comandou. Uma operação audaciosa e ambiciosa que tinha objectivos no âmbito político, estratégico e táctico. Esta ideia tinha-lhe começado a germinar ainda na 1.ª comissão ao querer planear um golpe de mão, a fim de libertar o Sargento Piloto António Lobato, que tinha sido feito prisioneiro pelo PAIGC, após uma aterragem forçada e levado para a Guiné Conakry.
Aproveito para dizer que o comportamento absolutamente excepcional deste militar durante os sete anos e meio que esteve preso – e que a operação conduzida pelo Comandante Calvão, finalmente libertou, juntamente com outros 25 prisioneiros – devia ser conhecida em todas as escolas do nosso país.
Desde essa altura as modalidades de acção da operação foram evoluindo até ao plano final da sua execução. E podemos afirmar que se todos os objectivos desta operação tivessem sido atingidos, muito possivelmente, a guerra na Guiné teria os seus dias contados.
O fim da operação coincidiu com o fim da comissão e temos Alpoim Calvão de volta à Metrópole, no fim desse ano. Depois de várias peripécias vai chefiar a Divisão de Operações do Comando Naval do Continente e, um ano depois, a 4/1/72, vai comandar a Polícia Marítima. Ainda nesse ano tem o seu primeiro trabalho civil como adjunto da administração da Fábrica de Explosivos da Trafaria, em ‘part time’.
A sua mente não pára e giza um plano para montar um serviço de informações estratégicas, complementar da DGS e das informações militares, que dependesse do CEMGFA (nome de código “Dragão Marinho”). O plano é aprovado e posto em acção. Monta-se uma pequena estrutura e recruta-se gente. Várias operações tomam forma e numa delas é feito o primeiro contacto secreto com Amílcar Cabral. Três meses depois este é morto em Conakry.
Muito haveria a esperar deste serviço mas o General Costa Gomes, que substituiu o General Venâncio Deslandes como CEMGFA acabou, mais tarde, por boicotar o projecto e pôs-lhe um fim, em 15/1/74.
Na Polícia Marítima consegue detectar e resolver alguns casos de navios que faziam escala em Lisboa e que transportavam material de guerra, sob disfarce, para os movimentos que nos guerreavam em África.
O mais célebre de todos ocorreu com o navio “Esperaza II”, que desapareceu misteriosamente no mar depois de largar do Porto de Lisboa…
Pelo meio Alpoim Calvão – desde sempre um amante do desporto – ainda arranjou tempo para ser Presidente da Comissão Central de Árbitros e da Federação Portuguesa de Remo, entre 1972 e 1974.
Para já não falar da Ópera cujo gosto cultivou desde novo, chegando mesmo a ter aulas de canto e a dar espectáculos, não deixando os seus créditos por mãos alheias!
Convidado por Pinheiro de Azevedo para participar no Golpe de Estado do 25 de Abril de 74, recusou por não lhe parecer que o Ultramar fosse defendido e salvaguardado. Sem embargo de ter concordado com a publicação do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”, talvez o erro de avaliação maior da sua vida.
Um “homem das Arábias”
Em 20 de Julho de 1974 é exonerado da Polícia Marítima e colocado numa “prateleira”. A sua promoção fica “congelada” e Alpoim Calvão pede para passar à licença ilimitada, em 1/11/74. Iniciava-se para Calvão a fase mais turbulenta e agitada da sua vida. Para ganhar a vida vai trabalhar para uma empresa de mergulho e como consultor da Fábrica de Explosivos da Trafaria. Os acontecimentos precipitam-se e Alpoim Calvão é expulso da Armada, em 21/3/75, acusado de ter participado nos eventos do “11 de Março” desse ano, na sequência do qual foge para Espanha, após uma aparatosa fuga, pelo país, que durou uma semana.
Alpoim Calvão entra agora em conflito com as autoridades do seu país e decide-se a lutar contra aquilo que designou de “invasão marxista-leninista”. É um dos principais fundadores do MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), em 5/5/75, presidido por Spínola, e que foi dissolvido em 29/4/76.
O período que o MDLP esteve em actividade, viu Alpoim Calvão levar uma vida digna de figurar nos episódios da série James Bond.
Com o fim do chamado “PREC” e acalmada a vida política e social em Portugal, Alpoim Calvão escreve o livro “De Conakry ao MDLP”, em 1976 e passa por vários processos em tribunal, todos arquivados.
Porém, Alpoim Calvão não regressa a Portugal, expulso de Espanha, acaba no Rio de Janeiro, onde se instala com a ajuda de amigos.
A sua vida no Brasil dá outro filme. Monta negócios com a ajuda de um oficial da marinha brasileira; manda vir a família juntar-se-lhe e tira um curso de gestão de empresas. Obtém sociedade numa concessão de garimpo de esmeraldas, no interior do Brasil, que explora. Esgotada a jazida, enfrenta um novo desafio na exploração agropecuária da fazenda Caiçará, com 140 mil hectares, coisa pouca…
Tudo isto em cerca de dois anos! Não se pode dizer que falta tempero na vida deste homem…
Por falar em tempero, é mister acrescentar a sua fama gastronómica como cozinheiro embora confesse a minha frustração em nunca ter provado nada…
Dando conta da incrível presença e obra dos portugueses no Brasil, Alpoim Calvão sara as suas feridas com a Pátria e passa a acreditar, de novo, no seu destino.
As saudades, suas e da família, fizeram-no regressar a Portugal, no início de 1978, após garantias de que não seria incomodado. Mesmo assim fá-lo clandestinamente. Continua ligado ao Brasil e passa a trabalhar novamente nos Explosivos da Trafaria, onde fica até 1986. Neste ano é reintegrado na Armada e promovido a Capitão de Mar-e-Guerra, reparando-se uma injustiça cometida 10 anos antes.
Nino Vieira, agora Presidente do novo estado lusófono, convida-o a visitar Bissau, onde cria a “Liga dos Antigos Combatentes das Forças Especiais Portuguesas na Guiné”.
Entretanto adquire a Companhia de Pólvora e Munições de Barcarena e tem negócios por esse mundo fora. No meio de um destes negócios, chega a ganhar uma cáfila de 20 camelos, numa aposta feita na Somália….
Bem se pode dizer que Alpoim Calvão é um “homem das Arábias”…
Já no Outono da vida – o que em Calvão é apenas um eufemismo de maior maturidade e experiência, já que a sua vontade e querer se mantêm inalteradas até hoje – o “chefe” como também é conhecido, confrontando-se com o miserável abandono a que tinham sido votados os antigos combatentes portugueses de origem não caucasiana, e a traição ignóbil aos mesmos, que resultou em que centenas dos seus antigos camaradas guineenses pudessem ter sido vilmente assassinados e enterrados em valas comuns – um passivo que o que resta da Nação Portuguesa terá que carregar para todo o sempre! – levam Alpoim Calvão a tentar ajudar os sobreviventes e a denunciar as atrocidades.
Para tal chegou a confrontar, cara a cara, o principal responsável pela barbaridade, o antigo Presidente da Guiné Luís Cabral, na TV, decidindo ainda a investir na Guiné onde, até hoje, mantém empresas a funcionar empregando centenas de guineenses.
Eis, pois, o mais puro exemplo da colonização portuguesa, que imperialismos vários, ideologias malsãs e neocolonialismos de oportunidade, quiseram fazer confundir com “colonialismo”.
Apesar de todas as “amplas liberdades” e da apregoada “ética republicana”, da “democracia pluralista” e outras falácias do género, ainda hoje tudo isto se encontra envolto no manto diáfano da falsidade.
Conclusão
Tudo o que relatei, o livro “Alpoim Calvão, Honra e Dever”, nos conta, nos esclarece e nos faz reflectir.
É a história, o mais humana possível – dado que a natureza humana é o seu centro – de um português das “Sete Partidas”, que tem uma visão telúrica da Pátria e por ela se bateu, com paroxismos de heroísmo.
Um homem do antes quebrar do que torcer; um militar que intuiu e interiorizou as virtudes conhecidas por “militares”; que desde o início da nacionalidade moldaram os grandes combatentes, e enformaram as Forças Armadas.
O chefe audaz que não temia os riscos e que sem descurar os princípios da guerra – que a experiência dos séculos torna perenes – não se confinava aos mesmos, pois cada situação requer inovação e o princípio da surpresa não conhece limitações.
A sua liderança “criativa” teve sempre o homem, combatente ou não, como centro da sua acção, pois sem isso nada é possível conseguir.
Sendo possuidor de vastas qualidades e dons com que a natureza o dotara, não consta que tal lhe tenha ofuscado o critério, não se lhe nota ponta de afectação, nem alguém se lembra de o ter visto em bicos dos pés para se alcandorar a posições.
Não quer isto dizer que não se orgulhe do que fez, mas manteve-se simples e sóbrio, como é próprio dos grandes homens.
Não sendo imune aos ataques pessoais, invejas e ódios políticos, quedou-se imperturbável, firme e constante nas acções, como uma espada de boa têmpera.
Enfim, o Capitão de Mar-e-Guerra Alpoim Calvão foi um combatente e comandante de elite. Homem de vários saberes, de uma enorme capacidade de trabalho, grande desembaraço e versatilidade na acção.
Personalidade multifacetada, a sua lealdade não é questionável e a sua dedicação às causas em que se empenha, não conhece limites.
Tudo feito com um acrisolado amor à sua terra e à sua História, de que se tornou também um estudioso. A ele bem se aplica o imortal verso de Camões: “E julgareis qual é mais excelente: se ser do mundo rei, se de tal gente!”

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