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segunda-feira, 3 de junho de 2013

SEMPRE NA ONDA

"O cacilheiro Trafaria Praia é uma espécie de arca de Noé portuguesa. Não só representa, desde ontem, o país na 55ª Bienal de Veneza, como conseguiu levar a bordo personagens, tendências, épocas, aspirações, empresas e pessoas muito diferentes, algumas delas surpreendentes. Por exemplo, o FC Porto é um dos apoiantes que ajudou a pagar esta instalação móvel de Joana Vasconcelos, apesar de estarmos a falar de um cacilheiro, transporte que liga as margens do Tejo, e não de um barco rabelo, que navega pelas águas do rio Douro.
O Trafaria Praia juntou ainda vários ministérios, da Economia aos Negócios Estrangeiros à secretaria de Estado da Cultura - viajando das mãos do ex, Francisco José Viegas, para o atual, Jorge Barreto Xavier, sem que isso deixasse de ser notado nos discursos -, exibindo uma imagem de unidade pouco habitual no Conselho de Ministros.
António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, também se juntou e deu força à iniciativa; e até é provável, ou pelo menos possível, que o Trafaria Praia, depois de passear os visitantes pela lagoa de Veneza até 24 de novembro, altura em que acaba a exposição, passe a integrar o roteiro cultural de Lisboa como pavilhão flutuante. Veremos se será assim, veremos onde será estacionado, veremos se há dinheiro, mas a ideia está no ar.
Até lá, estará nas águas venezianas e serão os milhares de turistas que diariamente visitam a “Sereníssima” - de Sereníssima República da Veneza, extinta em 1797 - a poder andar de cacilheiro (há quatro viagens de 30 minutos por dia) pelas águas mexidas da lagoa. Mas não será apenas boleia grátis a atrair os visitantes, até porque não faltam vaporetti, gôndolas e iates chiquíssimos, dos célebres Riva, aqueles de madeira lindíssima, aos porta-aviões de luxo tipo Roman Abromovich, que nesta época atracam em Veneza para que os seus donos vejam as centenas de exposições e concertos que há por toda a parte (de Ai WeiWei à chuva de moedas do artista Vadim Zakharov no pavilhão russo) e para que possam ser vistos nas festas que agitam este canto do Adriático.
Ontem, a mexicana Salma Hayek e Leonardo di Caprio centravam as atenções, mas nos próximos dias será em Veneza que se vão misturar muitos mais artistas e milionários, empresários e empresas que se associam aos eventos, além dos turistas que enchem a Praça S. Marcos, onde um cartaz gigante da Samsung é uma pista para as atuais regras do jogo: com os cofres públicos europeus cada vez mais enxutos, são os privados que pagam o restauro e a manutenção deste imenso património cultural e artístico. Sem patrocinadores privados, sem mecenas, dificilmente haveria bienal.

O regresso da Viúva Lamego
No Trafaria Praia também é assim. A começar logo pelo exterior do cacilheiro, revestido com um painel de azulejos pintados à mão, a azul e branco, que representa a Lisboa atual da Torre Vasco da Gama à Torre do Bugio, vista a partir do Tejo. A peça, explica Joana Vasconcelos, “inspira-se num outro painel de azulejos, o Grande Panorama de Lisboa, atribuído a Gabriel del Barco e presumivelmente datado de 1700, que mostra Lisboa antes do sismo de 1755”. A artista acrescenta: “É uma expressão fundamental do estilo barroco, a era dourada da azulejaria nacional.” Coube à Viúva Lamego, hoje parte da empresa Prébuild (leia mais aqui), o desafio de revestir o cacilheiro inteiro. Mais de 100 mil euros de retorno garantido: quem chega a pé aos Giardini (jardins) de Veneza percebe que aquele não é apenas um barco, é uma instalação viva que liga, pela água, Veneza a Lisboa e liga, pelos magníficos azulejos - são mesmo extraordinários -, a história de Portugal à sua atual expressão artística.


E há mais. No convés do cacilheiro, Joana Vasconcelos criou “um ambiente à base de têxteis e elementos luminosos”, que consiste em formas orgânicas coloridas. Resumindo, a peça por onde passam os passageiros de cabeça baixa é um complexo patchwork azul e branco que cobre o teto e as paredes, de onde emerge um emaranhado de elementos em crochet (claro) que incorporam LEDs. “A instalação - diz Joana - sugere uma atmosfera uterina que remete para o fundo do mar; um cenário evocativo do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne, ou alusivo à narrativa bíblica de Jonas e a Baleia.” E é isto. Em novembro, o Trafaria voltará a casa como chegou, rebocado ao longo de duas semanas, sempre com a costa à vista, mas só depois de ter conseguido o que nenhum outro país conseguiu nesta bienal: ter um pavilhão flutuante que integra realmente o dia a dia da cidade sereníssima. É verdade: a bordo, há debates, música, pastéis de nata mal cozidos e Vinho do Porto. Pinto da Costa, afinal, não se enganou no patrocínio."

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