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sábado, 11 de dezembro de 2010

NOBEL


Experimentando a Morte

Tinha imaginado estar ali, à luz do sol
com o cortejo dos mártires
um só osso esguio sustentando
uma convicção verdadeira
Todavia, o divino vazio não vai
revestir a ouro os sacrifi cados
Uma matilha de lobos bem nutridos
saciados de cadáveres
festeja no ar quente e jubiloso do meio-dia

Lugar distante
esse lugar sem sol
onde exilei a minha vida
para fugir à era de Cristo
Não consigo fi tar a ofuscante visão na cruz
De um fi o de fumo a um pequeno monte de cinzas
bebi até ao fi m a bebiba dos mártires, sinto a primavera
prestes a romper no rendilhado brilho de inúmeras fl ores

Noite dentro, estrada deserta
pedalo de regresso a casa
Páro num quiosque de tabaco
Um carro segue-me, atropela a bicicleta
Um par de brutamontes agarra-me
Algemado, olhos vendados, boca amordaçada
atirado para uma carrinha celular rumo a nenhures

Um piscar de olhos, trémulo instante
abre um clarão de lucidez: Ainda estou vivo
nas notícias da Televisão Central
o meu nome mudado para “mão negra detido”
ainda que esses anónimos ossos brancos dos mortos
se mantenham de pé no esquecimento
Ergo alto a mentira auto-inventada
Digo a todos como experimentei a morte
para que “mão negra” se torne a honrosa medalha de um herói

Sabendo embora que a morte
é um impenetrável mistério
estando vivo, não a posso experimentar
e uma vez morto
não posso repetir a experiência
pairo ainda assim dentro da morte
um pairar em afogamento
Noites sem conta atrás de janelas gradeadas
e as campas sob as estrelas
revelaram os meus pesadelos

À parte uma mentira
Não possuo nada

 Liu Xiaobó
Exclusivo PÚBLICO/New York Times)

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