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sábado, 4 de maio de 2013

HISTÓRIA


A  baleeira

Quem frequentasse a Praia da Torre nos anos cinquenta do século passado, repararia que havia sempre um grupo de miúdos de fato de banho preto com uma risca branca, no lado esquerdo da praia, que tinham o estranho costume de, de vez em quando, começarem a fazer pinos e flique-flaques. Eram os alunos do Colégio Militar em férias na Feitoria. Nesse tempo o Colégio tinha duas barracas na praia, onde se concentravam os alunos e as famílias dos professores que ficavam de serviço na Feitoria. Estes alunos conviviam muito com outro grupo constituído por famílias militares em férias no Lar Académico dos Filhos de Oficiais, ali perto em Oeiras, onde se incluíam muitos outros alunos e ex-alunos. Estas férias eram animadas com bailes à noite no Lar e, outras vezes, na Feitoria, onde uma camarata era transformada em salão de festas. Os convites eram extensivos a amigos que viviam na Linha ou, até, vindos de Lisboa. Havia sempre na praia, também, uma baleeira cinzenta amarrada a uma bóia a curta distância, alcançável a nado. Esta baleeira, cedida pela Marinha, e que pertencera a algum navio já abatido, era a alegria da rapaziada que nela remava o dia inteiro e servia para todo o tipo de brincadeiras e habilidades. De palamenta, tinha somente um par de remos e um bartedouro para tirar água. Quem superintendia vagamente no uso da baleeira era o Carranço, um fâmulo especial, encarregado do material do ginásio, de que muitos se recordam. Só intervinha em situações complicadas ou conflituais; de resto, andava-se à vontade. Se bem me recordo, chegou a haver também um snipe , mas como ninguém andava à vela, desapareceu de circulação.
As habilitações náuticas dos alunos e oficiais em férias na Feitoria eram nulas. Aprendia-se com a prática e não consta que tenha havido algum desastre. Houve, sim, algumas aventuras, em geral relacionadas com tentativas de ir ao Bugio ou a Carcavelos. Ninguém percebia nada de correntes e marés, por isso essas tentativas deram sempre para o torto, com aflição para quem ficava em terra, que via as horas a passar e nem sombra de baleeira. Havia também a nortada rija do fim da tarde, que causava sérios problemas para os remadores que se deixassem levar. Era uma inconsciente liberdade em que os jovens se desenvolviam, ganhavam e experimentavam novas capacidades. Não consigo imaginar hoje esta situação, em que há seguranças para tudo e vigilância apertada. Mal se põe o pé numa embarcação aparece logo a Polícia Marítima a pedir a carta, os coletes de salvação, o seguro. Imagino que hoje em dia, se os pais das criancinhas sonhassem que elas andavam no mar sem um monitor qualificado, sem coletes de salvação, rádio, very-lights, etc., punham logo o director do Colégio em tribunal…
Outros tempos.

João Nuno Barbosa
Vice Almirante

Com a devida vénia tirado da Revista Zacatrás da AAACM

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