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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

MUITO INTERESSANTE


A INVASÃO DE CONAKRY
OS ANTECEDENTES POLÍTICOS DA OPERAÇÃO
«MAR VERDE»


Mário Matos e Lemos

           
Já se passaram mais de 40 anos sobre a invasão da Guiné-Conakry por tropas portuguesas (operação «Mar Verde»), em Novembro de 1970, mas esta acção ainda não está, creio eu, totalmente esclarecida no que se refere aos seus antecedentes políticos. Embora o processo oficial relativo a esta operação tenha sido destruído[1], sabe-se tudo, ou quase tudo, sobre como foi preparada, quem participou, como foi executada … Existem os depoimentos do Capitão de Mar-e-Guerra Alpoim Calvão[2], existem livros, existem entrevistas e artigos vários sobre o assunto, existe, até, um depoimento escrito do Marechal Spínola[3], mas pouco, ou nada, se fala dos antecedentes mais remotos da operação.
Tanto em Portugal como em França têm sido publicados alguns trabalhos sobre a invasão de 1970, no entanto centrados sobre a acção propriamente dita e/ou sobre as consequências internas que provocou na Guiné-Conakry, designadamente o aproveitamento que Sékou Touré fez da ocasião para eliminar opositores (só condenados à morte foram 92, dos quais 58 enforcados imediatamente, entre os quais 13 membros do Governo) prendendo e torturando centenas ou milhares de pessoas, nomeadamente alguns estrangeiros que, segundo o diplomata francês André Lewin, seriam «25 franceses, uma dezena de libaneses, 3 alemães, 1 grego, 1 belga e 1 checoslovaco». Dois desses livros, editados em França, relatam, designadamente, os momentos iniciais da invasão e a fuga de Sékou Touré, que se encontrava no seu palácio, para casa de amigos: um, a biografia de Touré, em 8 tomos, da autoria de André Lewin; o outro, um volume de memórias do guineense Alpha Diallo, encarcerado durante dez anos em Conakry e só libertado depois da morte do presidente poucos meses depois.[4] Há também que destacar o trabalho de Rui Hortelão, Luís Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa intitulado Alpoim Calvão – Honra e Dever – Uma Quase Biografia[5], que refere exaustivamente os preparativos e a execução da operação e dá até alguns pormenores sobre os contactos estabelecidos com os representantes da FNLG pelo próprio Calvão, já na fase final desses preparativos.
Sabe-se que a ideia da invasão surgiu ao Comandante Calvão, em 1969, face às realidades no teatro de operações. Numa sua recente entrevista[6], explicou este oficial:
Comecei a pensar nos prisioneiros portugueses em Conakri, que entretanto já eram mais de 20. Eles (o PAIGC[7]) tinham lanchas ligeiras mais rápidas do que as nossas.[8] Porque é que não íamos lá rebentar com aquilo? Fui falar com o comandante-chefe interino, o Comodoro Luciano Bastos[9], porque o general Spínola estava a águas no Luso. Mas o Comodoro, concordando com a minha sugestão, mandou-me falar com o Spínola. Meti-me num avião e fui ao Luso[10]. A minha ideia era rebentar com as lanchas e trazer os prisioneiros. Spínola concordou mas pediu-me um plano. Comecei logo a preparar o plano. Havia um grupo de oposicionistas ao Sékou Touré em contacto com o Governo Português.[11]
Por sua vez, António Luís Marinho, no seu livro Operação Mar Verde – Um documento para a História,[12] escreve:
Em finais de 1969, Spinola anuncia a Calvão que o Ministro do Ultramar[13] tinha sido contactado por elementos dissidentes do regime da República da Guiné que solicitavam apoio para uma acção contra o presidente Sékou Touré. Os primeiros contactos datavam de 1966. É aqui que nasce a ideia de apoiar um golpe de Estado contra o regime de Conakry.
            Outros dois historiadores, Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, sobre esse assunto são ainda mais explícitos e escreveram:
A Operação Mar Verde […] foi realizada para obter efeitos políticos directos através da execução de um golpe de estado em país estrangeiro, a Guiné-Conakri […] e visou a instalação em Conakri de um regime mais favorável às posições portuguesas.[14],:
Afinal, que papel poderá ter tido, na decisão final, o contacto dos oposicionistas guineenses com o Governo português, referido por todos estes autores?
Já aqui temos alguns pontos importantes:
a)      quando Alpoim Calvão propõe a operação, que concebera como simples golpe de mão para a destruição de alguns navios e a recuperação de prisioneiros, já havia contactos entre os adversários de Sékou Touré e o Governo português, sobre os quais é informado pelo General Spínola;
b)      segundo a documentação existente, os objectivos a atingir iriam muito mais longe do que os inicialmente pensados pelo Comandante Calvão;
c)      a instalação em Conakry de um regime «mais favorável às posições portuguesas» é um eufemismo para dizer que se acabava com a presença do PAIGC naquele país, o que seria importantíssimo para alterar a situação militar e política na Guiné-Bissau. Aliás, como veremos adiante, num documento entregue ao Governo português por um representante qualificado da FNLG, exprime-se claramente a intenção de pôr termo às actividades do PAIGC na Guiné-Conakry.
O próprio Marechal Spínola, afirma, no seu acima referido depoimento:[15]
A operação visava dois objectivos: o primeiro, de alta estratégia e de natureza externa, com vista a apoiar a realização de um golpe de estado na República da Guiné; o segundo, de natureza interna, visava o desmantelamento das instalações do PAIGC em Conakry, aprisionar Amílcar Cabral e libertar os militares portugueses detidos nas prisões do PAIGC […]. Estava vedada a hipótese da morte de Amílcar Cabral que deveria ser aprisionado e conduzido para Bissau[16], onde a sua presença era um factor-chave da minha manobra de condução do processo político-militar em curso na Guiné, com vista a um «cessar-fogo» que considerava altamente honroso para Portugal[17].
            António Luís Marinho escreveu, como se disse acima, que os contactos vinham de 1966, mas a avaliar por uma página de memórias do Visconde de Botelho, José Gago de Medeiros[18], os primeiros contactos só teriam sido estabelecidos em finais de Setembro de 1967.[19]
            Com efeito, Gago de Medeiros dedicou um capítulo dessas suas memórias[20] a descrever os contactos que teve com um homem que nessa altura o procurou em Genebra, que identifica apenas como François M…, e que se apresentou como «membro activo do partido guineense anti-Sékou Touré[21], isto é, a FNLG». François M… disse-lhe ter vindo do Senegal à Suíça, expressamente para se encontrar com ele e pedir-lhe que o pusesse em contacto com o Governo português. A indicação para o procurar fora-lhe dada, esclareceu, por um norte-americano, filho (parece que ligado à CIA) de Dale Carnegie[22]. Gago de Medeiros ouviu-o, diz que sem grande interesse, mas acabou por prometer que submeteria o assunto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. Pediu, no entanto, mais esclarecimentos, e resumiu assim o que lhe foi dito:
A situação na República da Guiné-Conakry é catastrófica. E o regime de Sékou Touré, ferozmente ditatorial, é comunista sanguinário. A economia e as instituições guineenses estão falidas desde a independência[23]. As exportações baixaram de 60 a 70 por cento. O arroz, base da alimentação do seu povo, custa três a quatro vezes mais que nos países limítrofes. A miséria é enorme, apesar de o subsolo ser riquíssimo. Sékou Touré, para se aguentar, retira as suas principais receitas da FRIA[24], controlada por capitais ocidentais, a principal exportadora da Guiné … No intuito de mascarar a sua falência perante a opinião pública nacional e internacional, Sékou Touré inventa periodicamente conjuras e atentados, graças ao que manda logo executar uns tantos guinéus – sempre entre patriotas e os mais cultos cidadãos, aqueles que poderiam incomodá-lo no futuro… Todos os dinheiros eventualmente disponíveis são utilizados para organizar a Polícia e manter campos de concentração … Em resultado desta situação, 800.000 naturais do país expatriaram-se voluntariamente, vivendo no Senegal, na Costa do Marfim, na Libéria e na Serra Leoa. A continuação deste êxodo e das demais circunstâncias descritas levaram à criação, pela elite dos guinéus no exílio, da Frente de Libertação Nacional da Guiné, com a única finalidade de destituir Sekou Touré e instaurar um regime político liberal e democrático, que conduza à paz e prosperidade nacionais.
                Refere em seguida o Visconde de Botelho um «memorial» que lhe foi mostrado e que terminava com o seguinte parágrafo:
Em virtude da interligação dos nossos interesses geográficos e humanos, desejaríamos obter uma ajuda apropriada do Governo português, a fim de atingirmos os nossos objectivos. Estamos conscientes das dificuldades de Lisboa, como estamos igualmente conscientes das implicações que as nossas diligências acarretarão. Mas um sucesso da nossa iniciativa, não temos dúvidas, permitirá temperar e harmonizar certas relações que conhece e a conciliação em definitivo dos interesses nacionais respectivos.
Era uma clara referência às facilidades de movimentação de que o PAIGC dispunha naquele país e a cujo fim se acenava.
            Afirma o Visconde de Botelho que, pouco depois, almoçara em Paris com o chefe do movimento anti-Sékou Touré, cujo nome não indica, e acrescenta:
Uma vez regressado a Portugal, em meados de Outubro, fiz chegar ao conhecimento do Presidente do Conselho o que se passara. O Doutor Salazar achou conveniente pôr o Ministro dos Estrangeiros[25] ao corrente da questão.
            Franco Nogueira - «certamente após ter consultado o Chefe do Governo» - disse ao Visconde que «mandasse vir o homem» e François M… chegou a Lisboa em Dezembro do mesmo ano, 1967. Botelho apresentou-o «a algumas personalidades, nomeadamente a Adriano Moreira, antigo Ministro do Ultramar[26]» e depois assistiu à conversa do visitante com o então director-geral político do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Hall Themido[27], dado que o Ministro se encontrava em Nova York. Themido, segundo o Visconde de Botelho, «não se pronunciou» mas informou que «transmitiria superiormente o que ouvira», embora vincando, «no decurso do diálogo, o melindre de certas actuações», com uma referência directa «à incursão de mercenários no Catanga, que provocara uma queixa de Kinshasa no Conselho de Segurança[28]». 
            François M… terá deixado Portugal no dia seguinte à reunião com o embaixador mas «passados alguns meses, já em 1968, chegou inesperadamente a Lisboa, acompanhado de outro dirigente da FNLG, residente em Dakar». Mantinha-se «a posição de expectativa», isto é, ninguém dera notícias concretas. O assunto estava agora nas mãos do Ministério do Ultramar e ele, Visconde de Botelho, não sendo funcionário do Estado, nem exercendo qualquer cargo político, como sublinhou, não poderia «continuar a servir de elo de ligação entre si (François M…) e o Governo […]. Só o Ministério por onde as coisas têm de ser encaminhadas é que poderá eventualmente empurrá-las, se com elas concordar».
            Segundo o Visconde de Botelho, «o novo esquema de contacto foi adoptado e François M… e a FNLG passaram a estar em ligação directa com o Ministério do Ultramar».
            Antes de prosseguir, há que examinar outro documento, uma exposição do «chefe», não identificado, de uma «Organização de Acção Contra o Comunismo (O.A.C.C.)»[29], igualmente não identificada, redigido em francês e datado de 5 de Outubro de 1967.[30]
Esse documento, intitulado Neutralização das actividades subversivas do P.A.I.G.C. por meio de uma operação política, começa da seguinte maneira:
Uma personalidade portuguesa fez-me, no mês de Junho, a seguinte pergunta: «Como neutralizar Amílcar Cabral?» Resposta: impedindo-o de agir a partir dos países vizinhos, principalmente fazendo-o expulsar da Guiné ex-francesa que lhe serve de base logística e de trânsito. Para isso, é preciso favorecer a mudança do regime revolucionário actual de Conakry para um regime moderado que renove com Bissau relações de boa vizinhança e cooperação económica. ESSAS POSSIBILIDADES EXISTEM.»[31]
Num Ponto I, o documento aponta os «Elementos Políticos Favoráveis» e começa por acentuar que «a [República da] Guiné está praticamente isolada», que o «conflito entre a Côte d’Ivoire» e a Guiné-Conakry não está resolvido e que o Senegal também tem sido alvo de ataques do «clã de Conakry que, ao que parece, está implicado no assassínio de Demba Diop[32], grande amigo do Sr. Senghor[33], e ao último atentado contra o próprio Sr. Senghor».
Passando ao ponto II, o mesmo documento afirma que «existe um Movimento político estruturado que se chama Frente Nacional de Libertação da Guiné», cujo objectivo é «derrubar Sékou Touré e instalar na Guiné um regime moderado» e que tem como presidente o Doutor Paul Dechanbenoit, como Secretário-Geral David Soumah e Keita Moussah como adjunto. Os principais apoios deste movimento são a Côte d’Ivoire, Senghor (que, no entanto, deve agir com maior descrição, pois é «rigorosamente controlado por Paris») e o Ghana, pois o novo regime teme «as actividades subversivas» do antigo Presidente Nkrumah[34], que se encontra exilado em Conakry[35]. Faz-se em seguida uma exposição sobre os apoios internos com que a FNLG contava, generalidades do tipo «no interior do país encontram-se cerca de 3.000 antigos soldados do exército francês, desmobilizados e cuja reintegração no exército guineense foi recusada por Sékou Touré», ou «o grande marabu do Futa Djalon, a mais alta autoridade dos fulas da Guiné, promoveu o sacrifício de cinco bois, na região de Labé, para pedir ao Céu a queda de Sékou Touré[36]». Diz mais adiante o documento que «o ponto fraco da FNLG, reconhecido, aliás, pelos seus dirigentes, reside no facto de não ter quadros qualificados para montar e dirigir a operação que deverá levar ao derrube de Sékou Touré, o que esteve a favor e explica o acordo concluído com a nossa Organização de Acção contra o Comunismo».
Apresenta-se em seguida um resumo do plano que teria sido assinado pela OACC e pela FNLG, segundo o qual «a Organização está encarregada de estabelecer um plano de operação político-militar visando derrubar o regime actual da Guiné e instalar um governo autenticamente nacional, saído da Frente de Libertação Nacional da Guiné» e «especifica que devem ser estabelecidos contactos com os diversos países interessados […] em particular para garantir um auxílio financeiro à operação».
Especificamente em relação a Portugal, lê-se no documento:
Fizemos igualmente admitir aos dirigentes da FNLG que o PAIGC, sendo de essência marxista e aliado de Sékou Touré, devia ser eliminado ao mesmo tempo que este último. A FLING[37] de Pinto Bull, que simpatiza com a FNLG e com a qual estamos em contacto, declara-se disposta a participar na operação e, em particular, com o nosso auxílio, a afastar o PAIGC do território senegalês, com a bênção do Sr. Senghor, que será obtida com toda a facilidade. Nesta ocasião, a FLING garantiu-nos estar disposta a entender-se com Portugal.
Concluindo, afirma-se que «este plano foi concebido no interesse de Portugal e para lhe trazer vantagens simultaneamente politicas, junto dos Estados do Ocidente africano, e financeiras, [graças] à eliminação da subversão que acarretará a redução dos esforços militares, e sem riscos de ordem internacional». Pede-se, por fim, total segredo para não prejudicar os planos estabelecidos e acrescenta-se em Nota: «Um anexo a este acordo estuda os objectivos – como apoios essenciais de Sékou Touré – que devem ser eliminados a priori. A FNLG considera que, entre estes, os dois principais elementos são o PAIGC e os Chineses.»[38]
Seguem-se extractos do já referido acordo, cuja autenticidade é garantida por uma nota manuscrita do Doutor Paul Dechanbenoit, datada de Les Fours, em 31 de Agosto de 1967, e garantindo que a FNLG está em conversações com «a Organização, representada pelo Senhor N.N.».[39] 
            Que existiram negociações com o Ministério do Ultramar[40], é certo. Resta saber se com François M… ou com outros interlocutores, se paralela ou separadamente.
            Com efeito, com data de 28 de Junho de 1968[41], o Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha[42]assina, em papel timbrado do Gabinete do Ministro do Ultramar, um documento «Muito Secreto»[43] no qual informa ter sido «procurado, no dia 24 de Junho, em Genebra, pelo Sr. Doré, funcionário do BIT[44] e nacional da República da Guiné (que já é conhecido em Lisboa) que desejava apresentar-me o chefe do seu movimento e, se esse movimento fosse bem sucedido, futuro Presidente da República da Guiné. Afinal éramos velhos e bons amigos! Trata-se de David Soumah[45], Secretário Geral da Confederação Sindical que conheço há largos anos […]. Dada a minha “intimidade” com Soumah, Doré abriu-se totalmente.»
 O apontamento relata depois a informação que lhe foi dada sobre as intenções da FNLG:
Têm tudo planeado para derrubar Sékou Touré. Para tal, como já referiram em Lisboa, carecem do acordo de Portugal. Segundo Soumah, o plano seria executado da seguinte forma:
Por ocasião de uma manifestação pública, um grupo lançaria a confusão e dois outros grupos, previamente infiltrados, neutralizariam o campo dos cubanos e ocupavam a rádio. Têm a certeza [de] que as elites e a população os acompanhariam e que, num dia, se tornariam senhores do poder; Soumah sabe que todos os chefes religiosos e tribais o acompanham. O exército está também com eles excepto os cubanos (cerca de 250 homens) e alguns, poucos, chineses instrutores da polícia.
O seu movimento tem o apoio da Costa do Marfim e o Senegal não o persegue pois desejaria que atingissem o objectivo que se propõem.
Precisam do apoio português, não para do nosso território partir a «infiltração» mas para a preparação e reunião dos grupos que se infiltrarão. A base principal seria na Serra Leoa. A uma pergunta minha acerca do apoio deste país, responderam que na Serra Leoa tudo é questão de dinheiro. Sabem que com £ 2.000 comprarão o comandante do campo militar perto da fronteira que será o primeiro a conduzi-los para se infiltrarem.
Gostariam que o plano fosse examinado pelas autoridades portuguesas que poderiam dar o seu conselho. Para tal poderiam vir a Lisboa entre 10 e 15 de Julho próximo.
Até 12 de Julho seguinte não houve qualquer resposta, pois, nessa data, Ribeiro da Cunha informa que o Sr. Doré lhe telefonara de Genebra para lhe comunicar que David Soumah estaria nessa cidade de 13 a 15 desse mês e «pretendia saber se poderia vir a Lisboa, para os efeitos referidos no apontamento anterior»,[46] acrescentando que ambos desejam vir a Lisboa «tão urgentemente quanto possível».
            Não parece ter havido resposta, pois a 11 de Agosto, uma nova informação de Ribeiro da Cunha, outra vez em papel timbrado do Ministério do Ultramar e com a classificação de «Muito Secreto» comunicava:
Às 13.30 h. de 10 de Agosto falou novamente de Genève o Senhor Doré. Pretendia saber se o Senhor Camará havia falado comigo. Respondi afirmativamente e, a uma pergunta do Senhor Doré, limitei-me a responder que havia conversado com as pessoas apropriadas.
O Senhor Doré comunicou-me que o Senhor David Soumah lhe havia telefonado de Dakar comunicando que tudo estava pronto e que o período melhor para a iniciativa seria na primeira quinzena de Setembro. E terminou com a frase: «Nous comptons sur vous[47]».[48]
Efectivamente, Camará Boubacar já havia sido recebido por alguma das «pessoas apropriadas» mas aparentemente não era grande o entusiasmo que a proposta da FNLG despertara: são duas as informações, ambas dactilografadas e datadas de 8 de Agosto e não assinadas[49]
Na primeira,
Interrogado sobre os meios de que dispõe o seu «movimento» para a consecução dos planos que tem em mente, declarou dispor de homens treinados na Costa do Marfim, donde sairiam na «hora H», enquadrados por técnicos militares franceses que o governo de França concordou em fornecer-lhes, e acrescentou que da Costa do Marfim passariam à Libéria, Serra Leoa e Conakry.
Disse ainda que, celebrando-se em 28 de Setembro as festas da independência e iniciando-se em 10 do mesmo mês a «semana artística», com a presença de inúmeros artistas de diversos países africanos, decidiram aproveitar essa hora festiva para lançar o golpe.
Perguntado sobre o que poderiam oferecer em troca de uma eventual ajuda por parte das Autoridades Portuguesas, respondeu: «O estabelecimento imediato de relações diplomáticas com Portugal e a liquidação do PAIGC».
Esta informação é seguida por um «comentário», na mesma página, também dactilografado:
Como opinião pessoal e para além da ajuda solicitada (que não seria demasiadamente grande desde que o plano resultasse) afigura-se-me que o «movimento» carecerá de estruturas capazes de o levar ao êxito.
Ao alto, manuscrita, também datada de 8 de Agosto, e com uma rubrica ilegível, a seguinte informação:
O Doré que escreveu a carta ao Dr. Ribº. da Cunha, parece ter falado ao Dr. Hall Themido no caso. O Sr. Dr. Caldeira Coelho[50] iria hoje falar no assunto ao Sr. Mº N. E. O Boubacar volta hoje à PIDE e vamos procurar saber com o que eles contam pª. a acção.
Com a mesma data de Agosto, existe ainda outra informação, igualmente dactilografada, igualmente não assinada, aparentemente continuação da primeira, mais pormenorizada:
Em continuação de conversa com o guineense Camará Boubacar, procurou-se esclarecer os seguintes pontos: 1º - Meios de que dispõem em homens e armas: 2º - Elementos com que contam no interior da República da Guiné; 3º - Possibilidade de apoio do [s] Governo [s] da França, Costa do Marfim, Serra Leoa e Senegal.
A estes pontos indicou: 1º - Dispõem na Costa do Marfim, Senegal e Serra Leoa, cerca de 1.100 homens, antigos elementos guineenses do exército francês, que não dispõem de armas, nem de meios de transporte, os quais contam obter se conseguirem a nossa ajuda financeira. 2º - Diz contarem com alguns Ministros e ex-Ministros, Oficiais do Exército e dirigentes da «Jeunesse». 3º - Do apoio francês, apenas sabe indicar que o Governo da Costa do Marfim estabeleceu contactos com o Governo francês, com vista ao derrubamento do regime de Sekou Touré, supondo que ele tenha o seu apoio; não dá, todavia, quaisquer dados concretos.[51]
A Serra Leoa, o Senegal e a Costa do Marfim, permitiram e permitem a presença de elementos da «FNLG – Frente de Libertação Nacional da Guiné» e o seu trânsito para acções em território guineense.
Sobre apoio financeiro e material de guerra, nada se conseguiu esclarecer.
O comentário do redactor da informação é francamente pessimista:
Afigura-se-nos que o auxílio que nos é solicitado, a ser concedido, se assemelha a um jogo de lotaria mas, ainda assim, foi pedido a Camará Boubacar «que elaborasse um relatório focando estes assuntos, o que ficou de fazer e entregar amanhã.
            A promessa parece ter sido cumprida, pois encontra-se no processo[52] um extenso documento, manuscrito, em francês, intitulado «Nota à atenção das autoridades portuguesas competentes», datada de Lisboa, 9 de Agosto de 1968.
            Esta «Nota», depois de historiar a formação da FNLG[53], de pormenorizar os apoios recebidos, particularmente da Costa do Marfim, a organização do movimento e as próprias dificuldades internas, afirma existirem «subsecções clandestinas» no interior da Guiné-Conakry e apoios de políticos e de membros do Estado-Maior do Exército guineense. Quanto ao exterior, dispõem de cerca de «1.500» militares, antigos combatentes do Exército francês, dispersos pela Costa do Marfim, pelo Senegal e pela Serra Leoa, dos quais «300 estão a ser treinados há cerca de um mês», com vista a serem usados na «acção que encaramos para a primeira quinzena do mês de Setembro de 1968, por ocasião da quinzena artística que todos os anos precede as festas que assinalam o aniversário da independência[54]».
            Sobre a missão que se deslocara nessa altura a Portugal, afirma-se que o seu «objectivo é obter das autoridades de Portugal, que consideramos como aliadas naturais do nosso justo combate, um auxílio material e financeiro cujos pormenores figuram num documento anexo a esta nota».
            Caso se chegue a acordo – prossegue o documento - «os compromissos que a FNLG toma relativamente a Portugal são os seguintes: - liquidação sistemática do PAIGC e de todas as suas bases em território da República da Guiné; neutralização total da fronteira comum aos nossos dois países; reconhecimento diplomático de Portugal; abertura de um consulado em Lisboa; estabelecimento de relações comerciais».
            O apontamento de Camará Boubacar manifesta a convicção de que «estão actualmente reunidas todas as condições para proceder a um golpe de estado na Guiné» e explica mais pormenorizadamente os apoios, já referidos noutras ocasiões, de que dispõe a FNLG: na Costa do Marfim, onde residem «300.000 guineenses», o movimento é reconhecido oficialmente; no Senegal, «mantém boas relações com o Presidente Senghor […], a organização funciona normalmente, sem quaisquer limitações e os nossos responsáveis viajam com passaportes senegaleses»; na Serra Leoa, «as nossas relações com o anterior governo militar eram excelentes mas as repentinas alterações verificadas nestes últimos meses colocaram-nos numa posição de expectativa relativamente às autoridades» embora se tenham estabelecido contactos estreitos entre as duas partes porque «do ponto de vista estratégico, a Serra Leoa merece-nos uma muito particular atenção, pois é das suas fronteiras que partirão todas as operações dirigidas contra Conakry»; quanto à França, com cujo governo, aparentemente, nunca a FNLG tomou contacto directo, dá-se a entender que existe um traço de união entre aquele país e a Costa do Marfim. «Estamos convencidos – prossegue – de que o apoio, a liberdade e a segurança de que beneficiam o movimento e os seus elementos nos dois países francófonos acima citados é em parte resultante da discretíssima actuação das autoridades francesas.»[55]
O documento
1)      insiste muito nas futuras boas relações da Guiné-Conakry com a França que, afirma, «está a par dos nossos preparativos militares desde Janeiro de 1968» e garante que «oficiais franceses têm regularmente mantido e mantêm contactos connosco» o que «quer dizer que a França está interessada»:
2)      protesta que a FNLG não tenciona organizar um guerrilha mas sim lançar «uma acção rápida de comandos contra a pessoa de Sékou e de alguns dos seus lugares-tenentes imediatamente seguida de uma operação de grande envergadura para neutralizar a situação»;
3)      e reafirma que «além de todo o povo, que está de alma e coração connosco, vários batalhões das forças armadas foram ganhos para a nossa causa, incluindo numerosos quadros do Estado».
            Surge, por fim, o pedido concreto do apoio que se pretende receber de Portugal:
Os únicos problemas urgentes e muito importantes são: o material que pedimos a Portugal e os 40.000 Francos CFA, ou seja 160.000 dólares para garantir o transporte dos homens e a sua manutenção durante a campanha nas condições especiais que predominam neste região.        
            Além do dinheiro – equivalente, ao câmbio da altura, a menos de 5.000 contos – o material pedido era, para os 300 antigos militares, o seguinte: «180 espingardas, 60 pistolas-metralhadoras, 30 pistolas automáticas, 30 lança-granadas, seis espingardas-metralhadoras, 300 punhais», bem como «as munições para estas armas, uma certa quantidade de granadas ofensivas, defensivas, incendiárias, petardos e minas» e «uma farmácia completa, se possível». A entrega do material, em data a combinar, far-se-ia «na Gâmbia ou no alto-mar, com o auxílio de um barco de pesca que fretaremos para esse efeito».[56]
            Da leitura de todos estes diversos documentos, percebe-se que tanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros como o Ministério do Ultramar[57] não partilhavam o entusiasmo da FNLG quanto à participação portuguesa num ataque à Guiné-Conakry, o que nos leva a perguntar por que passou tanto tempo até à decisão portuguesa se concretizar, e em moldes completamente diferentes dos propostos pelos dissidentes guineenses, e que entidade, ou entidades, apoiaram a ideia. A PIDE? Ainda em 2000, falei com o general Pedro Cardoso[58] que me disse ter sido a PIDE a elaborar os planos da invasão, o que, acentuou-me, só seria possível com ordcns superiores, acima do próprio Governador da Guiné, isto é, do Presidente do Conselho[59].
Por sua vez, o Marechal Spínola, no seu já citado depoimento, afirma que dois dos seus oficiais, Firmino Miguel[60] e Carlos Azeredo[61], colaboraram na elaboração do plano de invasão, «com especial relevo para o primeiro, que foi o elemento principal do planeamento». Colaboraram nesse planeamento com a PIDE ou com o Comandante Calvão? Segundo José Freire Antunes[62], o contacto directo na PIDE era o Sub-Director-Geral e chefe do departamento africano daquela polícia inspector Barbieri Cardoso[63], que teria sido mesmo quem entregou ao fornecedor o cheque de 3.450.000$00 destinado a pagar a compra das armas que foram usadas naquela operação, entre as quais 250 kalachnikovs, 20 morteiros e 12 PRG-7, o que também mostra a profunda implicação da polícia política nos preparativos para a incursão em Conakry[64].
Parece, no entanto, estranho que a PIDE tivesse pessoal capacitado para elaborar planos tão complexos. Além de que acabaria por verificar-se que falhou aquilo que se esperaria fizesse bem: dar informações correctas para a movimentação das forças invasoras. É verdade que a PIDE (e depois a DGS, que lhe sucedeu em Março de 1969) manteve um serviço de recolha de informações sobre a República da Guiné praticamente desde a independência daquele país. Essas informações eram enviadas à Presidência do Conselho, ao Ministério da Defesa Nacional, ao Ministério do Ultramar, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e, naturalmente, ao comando-chefe da Guiné. Para além das movimentações fronteiriças, tanto dos guerrilheiros do PAIGC, como dos militares e, até, das populações da República da Guiné, eram dadas informações sobre a instabilidade política e social da Guiné-Conakry e sobre as ameaças externas, as quais – coincidindo com o que a FNLG afirmava - eram de molde a convencer as autoridades portuguesas da fragilidade da posição de Sékou Touré. Por exemplo, em 11 de Junho de 1969 uma informação dizia existirem «movimentações na fronteira da República da Guiné com a Costa do Marfim em virtude de Sékou Touré temer qualquer acção da FNLG naquelas zonas»; e, em 17 do mesmo mês e ano, outra informação garantia que «as autoridades guineenses reforçaram a vigilância na fronteira de Buruntuma, porque esperam a infiltração de um grupo de antigos combatentes franceses inimigos de Sékou Touré que vão de Paris em auxílio dos militares do complot da oposição que estão presos em Conakry».[65]
 Às vezes, havia alguma imprecisão no que se dizia, como por exemplo numa informação de 18 de Março de 1969[66] em que depois de se afirmar que a situação interna da Guiné-Conakry continuava «tensa», se acrescentava: «Depois do golpe de estado falhado contra Sékou Touré há relativamente pouco tempo, este presidente deixou de pernoitar no Palácio do Governo fazendo-o no bairro de “Belle Vie” (sic) na parte norte daquela capital, que dista cerca de 8 quilómetros do Palácio.» Aqui pode perguntar-se o que significa «há relativamente pouco tempo» e se a informação de que Sékou Touré passara a pernoitar na residência de Belle Vue não foi confirmada até Novembro de 1970, levando as forças invasoras a destruir essa residência, onde o chefe do Estado guineense estaria.
 Do que não há dúvida é de que Spínola se empenhou profundamente no plano, indo para além da proposta de libertação dos presos e de destruição das lanchas. O objectivo principal passara a ser o derrube de Touré. No seu relatório[67], Alpoim Calvão escreve:
A missão foi atribuída pelo general governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, sob minha proposta:
- Realizar um golpe de Estado na República da Guiné a fim de permitir a subida ao poder dum governo favorável aos Altos Interesses da Nação[68].
- Paralelamente, executar um golpe de mão sobre as instalações do PAIGC em Conakry, a fim de lhe causar baixas, destruir material, causar danos psicológicos e libertar os 26 militares portugueses detidos na prisão do partido.[69]
O próprio Calvão se deslocou várias vezes a Genebra e a Paris, acompanhado pelo inspector da DGS Matos Rodrigues[70] a fim de se encontrar com dirigentes da FNLG, que identifica: Doré, David Soumah e Thierno Diallo, um antigo major do exército francês. Nesses encontros foi decidido estabelecer um acordo entre aquele movimento e o Governo português no qual se previa a interdição do PAIGC na República da Guiné.[71] Posteriormente, três representantes dos dissidentes da Guiné-Conakry instalaram-se mesmo em Bissau, tendo elaborado uma lista de governantes e redigido declarações e proclamações.[72]
Spinola é, portanto, o impulsionador principal do ataque nos moldes em que foi concretizado: um golpe de estado que, se triunfasse, teria a maior importância para a Guiné-Bissau, como demonstra claramente a carta que dirigiu a Marcello Caetano em 12 de Novembro de 1970, uma semana antes da operação «Mar Verde»[73], em que escreve:
Face às reservas postas na última carta que recebi do senhor Ministro do Ultramar, relativamente a esta última acção, tomei a liberdade de enviar à Metrópole o capitão-tenente Guilherme Alpoim Calvão, chefe do Departamento de Operações Especiais do Comando-Chefe, com o encargo de documentar Vossa Excelência sobre a possibilidade de êxito na acção planeada, que não tenho dúvidas em classificar de decisiva para o desfecho da guerra na Guiné. Pela minha parte assumo a plena responsabilidade local do seu lançamento, correndo os riscos necessários, pois continuo firmemente convencido de que, apesar dos indiscutíveis sucessos já alcançados no âmbito de uma contra-revolução social, perderemos irremediavelmente a Guiné se não neutralizarmos o inimigo no exterior.
No já citado trabalho de Rui Hortelão, Sanches de Baêna e Melo e Sousa, escreve-se que Alpoim Calvão foi recebido por Caetano logo na segunda-feira 16 no seu gabinete em S. Bento e que autorizou explicitamente a invasão, concordando com aquele oficial que bastaria a libertação dos prisioneiros portugueses para ela poder ser considerada um êxito.
Resumindo e concluindo:
1) A Operação «Mar Verde» foi inicialmente pensada pelo Comandante Alpoim Calvão para atingir dois objectivos:
- libertar os 26 presioneiros portugueses do PAIGC e
- destruir as lanchas do PAIGC.
2) Quando expõe essa acção a Spínola, este concorda e informa Alpoim Calvão de que existiam contactos entre o Governo português e adversários de Sékou Touré.
3) Esses contactos decorriam, pelo menos, desde 1967 e tinham como objectivo obter o apoio de Portugal para a invasão da Guiné-Conakry, operação que ficaria a cargo exclusivamente de naturais daquele país e que partiria da Serra Leoa. O apoio pedido limitava-se a uma contribuição financeira, nem sequer muito relevante, ao treino de guineenses da FNLG e ao fornecimento de material militar devidamente especificado. A contrapartida oferecida pela FNLG para o apoio pedido seria a proibição das actividades do PAIGC em território da Guiné-Conakry, o que significaria o fim da actividade daquele movimento na Guiné-Bissau, pelo menos enquanto o novo governo da República da Guiné se mantivesse no poder.
4) Aparentemente, não existe, até 1970, qualquer documento da FNLG que levante a hipótese de a invasão partir de território da então Guiné Portuguesa. Alguém convenceu os dissidentes guineenses a alterarem o seu plano inicial.
5) António de Spínola não só sabia das conversações entre o Governo português e a FNLG, como esteve sempre institucionalmente a par dos contactos da PIDE com a FNLG, o que é confirmado por dois telegramas dirigidos pelo ministro Silva Cunha ao governador e comandante-chefe da Guiné, telegramas oficiais, assinados simplesmente, como era praxe, «Ministro». Um, datado de 14 de Outubro de 1969, informa que «Doré telefonou dizendo David[74] aguarda indicações de Matos Rodrigues»[75]; o segundo, dez dias mais tarde, a 24, portanto, diz: «Doré telefonou ontem de Genève informando haver recebido comunicação Mamadou. Deu seguimento pedido e avisou David.»[76]
Como já se disse, e Alpoim Calvão confirma[77], tanto o Ministério do Ultramar, como o Ministério da Defesa Nacional – e também o Ministério dos Negócios Estrangeiros - não se mostraram muito entusiasmados, para dizer o menos, com receio das repercussões internacionais. Todavia, a operação veio a concretizar-se um ano depois, em moldes completamente diferentes e aparentemente com custos materiais superiores aos necessários para satisfazer o que fora pedido pela FNLG. Os objectivos iniciais propostos pelo comandante Calvão foram consideravelmente alargados: o golpe de mão transformou-se no apoio a um golpe de Estado, conduzido a partir de território da Guiné-Portuguesa, com militares portugueses e comandos africanos, que enquadravam, ou pelo menos acompanhavam, cidadãos guineenses recolhidos em países vizinhos e treinados na Guiné-Bissau, e incluíam «neutralizar» Sékou Touré, ocupar a estação de Rádio, destruir as vedetas e lanchas rápidas armadas surtas no porto de Conakry e os aviões MIG da Força Aérea guineense e dominar as forças presidenciais: guarda republicana, milícias e gendarmes.
Seguramente, as conversações prosseguiram depois de Marcello Caetano ter sucedido a Salazar, em Setembro de 1968. Foi com certeza posto ao corrente das propostas feitas pela FNLG, muito provavelmente, como é natural, pelo Ministro do Ultramar, que continuava a ser Silva Cunha, mas também – é igualmente uma probabilidade – pelo director da PIDE, Silva Pais[78], e pelo próprio General Spínola.
Resta uma pergunta:
Por que motivo o Governo português não aceitou as propostas da FNLG, mais baratas e, principalmente, muito menos comprometedoras politicamente em caso de malogro? 
Embora não exista documentação que suporte uma resposta cabal, parece muito provável que Spínola, pouco confiante na capacidade militar dos guineenses para, sozinhos, levarem a bom termo a invasão mas entusiasmado com a possibilidade de acabar com a presença do PAIGC na Guiné-Conakry, tivesse convencido Marcello Caetano a autorizar a operação com a participação de forças portuguesas e a partir da Guiné Portuguesa. Todavia, o seu malogro acarretou consequências gravíssimas: em primeiro lugar, a consolidação do regime de Touré que, como já acima se referiu, aproveitou a ocasião para matar muitos dos seus potenciais opositores – alguns enforcados nas pontes da capital, para exemplo, outros lançados na prisão, onde morreriam ou de onde não saíram enquanto Touré viveu; em segundo lugar trouxe para as águas do Golfo, logo em Dezembro de 1970, em resposta a um pedido de auxílio do chefe do Estado guineense, uma força naval soviética, com dois navios, um dos quais armado com mísseis, e a que se juntaria mais tarde um navio anfíbio[79]; por fim, poderá ter comprometido futuras iniciativas de Spínola, no sentido de conseguir um acordo de tréguas com o PAIGC, como as conversações com Senghor ou um encontro com Amílcar Cabral.
É, por isso, plausível que o futuro difícil relacionamento de Spínola com o Governo português[80], tenha as suas raízes, para além de outros motivos, no malogro da operação «Mar Verde», cujo principal objectivo, derrubar Touré, não fora alcançado.



















































           
















[1] Afirmação do próprio Marechal Spínola. Cf. AHM – Div. 2, Secção 4, Cx. 306, Nº 1, reservados  nº 114., doc. 217. Na documentação da PIDE existente na Torre do Tombo encontra-se referência a um processo denominado FNLG (sigla do Front National de Libération Guinéen, em português Frente Nacional de Libertação da Guiné), dado, no entanto, como «inexistente».
[2] Guilherme Almor de Alpoim Calvão, n. 1937.
[3] António Sebastião Ribeiro de Spínola (1910-1996).
[4] Diallo, Alpha Abdoulaye, Dix Ans dans les Geôles de Sékou Touré, Paris, Éditions de l’Harmattan, 2004. Lewin, André, Ahmed Sékou Touré (1922-1984) Président de la Guinée, Tomo VI (1970-1976), Paris, Éditions de l’Harmattan, 2010. Agradeço reconhecidamente ao Dr. António Duarte Silva a informação da existência dessas obras.
[5] Lisboa, Editorial Caminhos Romanos, 2012.
[6] Semanário Sol, Lisboa, 9 de Março de 2012.
[7] Sigla de Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde.
[8] Trata-se, seguramente, das vedetas que em 20 de Agosto de 1967 chegaram ao porto de Conakry, procedentes da União Soviética. Tinham cerca de 20 metros de comprimento, eram movidas por quatro hélices, estavam equipadas com radar e rádio e armadas com dois canhões de pequeno calibre, um à ré e o outro à proa. A tripulação era constituída por manjacos que haviam trabalhado em navios mercantes portugueses e por alguns balantas da região de Naga. Seriam usadas para dificultar a navegação no canal do Geba e para atacar navios de grande calado que navegassem entre Jeta e o arquipélago dos Bijagós, além de dificultarem a navegação no rio Cacine. ANTT - Cf. AOS/CO/UL 50 C, doc. 475.
[9] Era o Comandante da Defesa Marítima.
[10] Estava-se em Agosto de 1969.
[11] Existem outros casos de pedido de apoio a Portugal para derrubar um governo africano vizinho: em 1967, dissidentes do regime do Congo-Brazzaville pediram «facilidades territoriais» em Angola para treino dos futuros invasores daquele país, bem como fardamentos adequados à instrução desses futuros invasores (os fardamentos iguais aos dos militares congoleses, a usar quando da invasão, seriam fornecidos pelas autoridades francesas) e «cinquenta sacos (tipo militar) com material de instrução», incluindo calças, camisas, botas, etc.). Também em 1967, rebeldes congoleses pediram «auxílio para a rebelião pró-Tshombé. Cf. ANTT – AOS/CO/UL 50 C.
[12] Lisboa, Círculo de Leitores, 2005.
[13] Era Ministro, desde Março de 1965 (e até 1973, ano em que passou para a Defesa Nacional), o Doutor Joaquim Moreira da Silva Cunha (n. 1920).
[14] Lisboa, Editorial Notícias, 2000.
[15] AHM – Div. 2, etc.. Foi escrito, a pedido do então director da Comissão de História Militar, General Manuel Freire Themudo Barata (1919-2003), em 4 de Janeiro de 1989, com o título: Subsídio para o esclarecimento da «Operação Mar Verde» realizada no TO [Teatro de Operações] da Guiné em Novembro de 1970. Este depoimento, onze folhas dactilografadas em resposta a várias perguntas, destinava-se a esclarecer o texto elaborado para a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974).
[16] Fernando Policarpo afirma que um dos «25 objectivos essenciais» da operação era «o assassínio de Amílcar Cabral», o que, como se viu acima, Spínola desmente: preso, sim; morto, não. Cf. Batalhas da História de Portugal – Guerra de África – Guiné, 1963-1974, Academia Portuguesa de História, p. 98.
[17] Não se percebe bem se o General Spínola entendia que o facto de ter Amílcar Cabral preso em Bissau facilitaria o entendimento com a direcção do PAIGC ou se pensava que Cabral estaria a seu lado na manobra de condução do processo político-militar em curso. Aliás, também não se percebe que interesse isso teria se o golpe de estado triunfasse, uma vez que, nesse caso, os vencedores garantiam que expulsariam o PAIGC. A verdade é que o Comandante Calvão, em entrevista concedida ao diário lisboeta Público, em 21 de Maio de 1991, afirmou que se Amílcar Cabral estivesse em Conakry e fosse capturado «seria eliminado ou (feito) prisioneiro; mas mais seguramente eliminado». Não estava fora de questão o assassínio de Cabral?
[18] José Honorato Gago da Câmara de Medeiros (1906-1979).
[19] Antes, portanto, da tomada de posse do então brigadeiro Spínola como governador da Guiné, o que se verificou em Maio de 1968. É muito possível que, ainda em Lisboa, tivesse sido informado desses ainda incipientes contactos.
[20] Um Açoriano no Mundo, Ponta Delgada, Livraria Martins, 1977, 2 vols., pp. 193-202.
[21] Amede Sékou Touré (1922-1984), Presidente da República da Guiné-Conakry desde a independência, em 1958, até falecer.
[22] Escritor norte-americano (1888-1955), especialista em relações humanas e famoso por obras traduzidas em várias línguas, entre as quais o português, designadamente Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas ou Como Evitar Preocupações e Começar a Viver.
[23] A República da Guiné foi a única colónia francesa que não aceitou qualquer tipo de ligação à França depois da independência, decisão muito mal acolhida pelo Presidente De Gaulle.
[24] Consórcio que explorava a bauxite, filial da empresa francesa de alumínios Péchiney SA, e que era, nessa altura, a principal fonte de divisas da República da Guiné. Cf. revista Newsweek de 18 de Março de 1968.
[25] Era então o Embaixador Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira (1918-1993).
[26] Prof. Dr. Adriano José Alves Moreira, n. 1922. Foi Subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1960-1961) e Ministro do Ultramar (1961-1963). Em 2000, quando pela primeira vez me interessei por este assunto, perguntei, pelo telefone, ao Prof. Adriano Moreira se se lembrava deste caso. Disse-me que não.
[27] Também em 2000, falei com o Embaixador Themido (João Manuel Hall Themido, n.1924), Director-Geral dos Assuntos Políticos do MNE entre Junho de 1964 e Janeiro de 1968) que igualmente me disse não se lembrar do caso. No entanto, como adiante se verá, embora, o Embaixador, na sua qualidade de Director-Geral tivesse tido activa intervenção no processo.
[28] Sobre este assunto, cf. José Duarte de Jesus, A Guerra Secreta de Salazar em África, especialmente as páginas 135-148
[29] Organisation d’action contre le Communisme.
[30] Visto e sublinhado por Salazar no dia seguinte. Cf. ANTT – AOS/CO/UL 57, docs.269-272.
[31] A tradução do francês é de minha responsabilidade, o sublinhado e as maiúsculas são do documento original.
[32] Político senegalês, nascido em 1927 e assassinado em 1967.
[33] Léopold Sedar Senghor (1906-2001) foi eleito Presidente do Senegal em 1960 e sucessivamente reeleito até 1980.
[34] Kwame Nkrumah (1909-1972), primeiro Primeiro Ministro (1957-1960) e primeiro Presidente (1960-1966) do Ghana, a antiga colónia britânica Gold Coast. Derrubado em 1966, fixou-se na Guiné-Conakry.
[35] Há que atentar no contexto político internacional: Senghor temia que a Guiné-Conakry, sob a influência da União Soviética, tivesse uma presença dominante numa Guiné Portuguesa independente, situação que também não agradaria à França, dado que Paris receava ver prejudicada a sua presença junto das antigas colónias, em particular o Senegal, dada a importância estratégica de Dakar.  
[36] A etnia fula espalha-se por cerca de 15 países, quase todos da África Ocidental subsaariana, em particular pelo Senegal, pela Guiné-Bissau e pela República da Guiné. Neste último país esteve sempre em oposição a Sékou Touré e ao seu regime.
[37] Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné, organização criada em1962, no Senegal, por Benjamim Pinto Bull (1916-2005, político e intelectual guineense), resultante da fusão de três movimentos: União dos Naturais da Guiné-Bissau, também fundada por Benjamim Pinto Bull, Reunião Democrática Africana da Guiné e União da População Libertada da Guiné.
[38] AOS/CO/UL 57, doc. 274.
[39] O nome está rasurado, não permitindo assim esclarecer o que era a «Organização». Teria ligações à AGINTER PRESSE? Cf. AOS/CO/UL 57, doc. 275.
[40] Sempre em 2000, contactei o Prof. Silva Cunha que se mantinha activo como professor numa Universidade do Porto. Escrevi-lhe duas cartas sobre este assunto, a segunda registada, mas não recebi resposta.
[41] Sobreviera, entretanto, um «incidente inusitado» que Franco Nogueira relata assim: «Um bimotor de fabrico russo, com matrícula da República da Guiné e ostentando as suas cores nacionais, aterra na Guiné portuguesa, e verifica-se que transporta uma delegação do Mali e dois tripulantes de nacionalidade guineense. É logo autorizada a seguir ao seu destino a missão maliana. Mas o avião e os seus tripulantes são internados. E o Governo de Lisboa declara: terroristas vindos da República da Guiné capturaram em território português cinco militares portugueses, entre os quais o sargento António Lobato, da Força Aérea; o governo da República da Guiné tem consentido e é conivente na manutenção daqueles militares em território seu, em regime de cárcere privado; e assim o governo português apenas entregará o avião e os seus tripulantes quando forem libertados os cinco militares portugueses […]. Dirige-se ao gabinete de Lisboa o governo alemão e pede, em nome da República da Guiné, que sejam libertados os nacionais guineenses e devolvido o avião de fabrico russo. Logo após, é o Presidente Sekou Touré que telegrafa pessoalmente a Salazar. Diz Touré: como a Guiné não está em guerra com Portugal, é injustificável a posição assumida: e por isso insiste pela libertação dos prisioneiros. Comenta Oliveira Salazar: exactamente porque a Guiné não está em guerra com Portugal, como justifica o Presidente Touré a detenção, no seu território e há anos, de portugueses de que os terroristas se apoderaram em território português? Não entrega Lisboa os seus detidos; e confia ao Governo de Bona uma possível mediação que conduza a uma troca.» Cf. Franco Nogueira, Salazar, vol. VI, pp. 330-331 e 336
[42] O Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha (1915-1983) foi secretário de Salazar (1939-1950) e depois foi colocado no Ministério das Corporações, tendo representado Portugal no Bureau International du Travail, em Genebra, e daí o seu conhecimento com o Senhor Doré, da FNLG. Personalidade respeitada, foi Inspector Superior do Gabinete dos Negócios Políticos no Ministério do Ultramar. Nessa qualidade esteve em Dakar, com o inspector da PIDE Matos Rodrigues, em1967 para conversações exploratórias com uma delegação senegalesa com vista à intermediação do Senegal para se chegar a um entendimento entre o Governo português e o PAIGC
[43] ANTT – AOS/CO/UL 52, docs. 626-627.
[44] Bureau International du Travail.
[45] Foi Secretário da Confederação Nacional dos Trabalhadores Crentes –Togo, criada em 1956.
[46] ANTT – AOS/CO/UL 52, doc. 648.
[47] Contamos convosco.
[48] AOS/CO/UL 52, doc. 663. Esta informação foi vista por Salazar que do seu punho cortou a indicação «Muito Secreto» e escreveu «Secreto», «Visto» e a data: 22.8.968. Nesta data, Salazar já sofrera a queda, ou as quedas, no Estoril e estava a escassas duas semanas de ser internado. Mantivera, no entanto, nesse mês (3 de Agosto-4 de Setembro) a sua actividade habitual. Cf. Franco Nogueira, ob. cit., pp. 376-380.
[49] ANTT – AOS/CO/UL 52, docs. 664-667.
[50] Gonçalo Luís Maravilhas Correia Caldeira Coelho (1918-1995). Foi Director-Geral interino dos Negócios Políticos no Ministério dos Negócios Estrangeiros entre 15 de Janeiro e 10 de Dezembro de 1968, data em que assumiu a titularidade plena do cargo, que manteve até 1973.
[51] Sublinhados de Salazar.
[52] ANTT – AOS/CO/ UL 52, docs. 658-682.
[53] Criada em 26 de Março de 1966 pelos expatriados guineenses na Costa do Marfim a que depois se teria juntado «a quase totalidade dos exilados guineenses na Europa e em África», no dizer do autor da «Nota».
[54] Intenção já referida por Camará Boubacar, como se viu atrás.
[55] Sékou Touré acusou claramente os serviços especiais franceses e alemães de cumplicidade no desembarque.
[56] A avaliar por um cartão de Silva Cunha dirigido a Salazar, este relatório («para o qual solicito a atenção de V. Exa.», escreve) foi entregue «na Polícia», seguramente a PIDE. Cf. AOS/CO/UL 52, doc. 662.
[57] Segundo António Luís Marinho, também o Ministro da Defesa, General Horácio José de Sá Viana Rebelo (1910-1995), não concordava com a operação. Em Alpoim Calvão – Honra e Dever - Uma Quase Biografia, diz-se que tanto o Ministro da Defesa como o do Ultramar não concordavam por recearem a reacção internacional.
[58] O General Pedro Alexandre Gomes Cardoso (1922-2002) esteve ligado aos serviços de informações desde o início da década de 60. A pedido do General Spínola, foi colocado na Guiné entre 1968 e 1972. Sabia, portanto, do que falava e a sua informação é tanto mais importante quanto se sabe que não era um defensor da PIDE. No entanto, não é possível deixar de perguntar se a PIDE teria capacidade para estabelecer aqueles planos.
[59] Claro que Marcello Caetano estava ciente de todos os contactos existentes mas pergunta-se: promoveu a acção ou limitou-se a ceder aos argumentos do General Spínola que mais tarde – e daí a carta que escreveu a Marcello Caetano nas vésperas da invasão - teria receado um recuo, face à oposição de alguns ministros?
[60] General Mário Firmino Miguel (1932-1991) foi Ministro da Defesa Nacional nos três primeiros governos constitucionais e Chefe do Estado-Maior do Exército entre 1987 e 1991.
[61] General Carlos Manuel de Azeredo Pinto Melo e Leme, n. 1930, foi Governador Civil do distrito do Funchal, comandante da Região Militar do Norte e chefe da Casa Militar do Presidente Mário Soares.
[62] V. O Semanário, de 29 de Outubro e de 10 de Dezembro de 1988.
[63] Agostinho Barbieri Baptista Cardoso (1907-1985).
[64] No entanto, no arquivo da PIDE/DGS que se encontra na Torre do Tombo não encontrei qualquer processo referente a esta operação. Talvez seja, ou fosse, o que está dado como «inexistente». Todavia, a implicação da PIDE (já DGS), se outras provas não houvesse, estaria perfeitamente documentada com o telegrama, abaixo citado, de Silva Cunha para Spínola.
[65] AHU – MU/GM/GNP/069. 
[66] Id., ibd..
[67] V. O Semanário, de 29 de Outubro e de 10 de Dezembro de 1988. 
[68] Recorde-se que este item não figurava na proposta apresentada por Alpoim Calvão a Spínola, em 1969.
[69] Na obra citada Alpoim Calvão – Honra e Dever - Uma Quase Biografia, a redacção deste parágrafo é ligeiramente diferente: - Paralelamente, executar um golpe de mão sobre as instalações do PAIGC em Conakry, a fim de lhe causar o maior número de baixas possível e de libertar os militares portugueses detidos na prisão do partido. No mesmo livro indica-se um terceiro objectivo, a libertação dos prisioneiros portugueses do PAIGC, aliás pensado desde início por Alpoim Calvão, como já se viu.
[70] Matos Rodrigues era o inspector da PIDE na Guiné encarregado das informações. Seria substituído pouco depois do malogro da operação pelo inspector Fragoso Alas. Ambos já faleceram.
[71] Alpoim Calvão – Honra e Dever – Uma Quase Biografia, p. 223.
[72] Id., ibid..
[73] José Freire Antunes, Cartas Particulares a Marcello Caetano, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985. Vol.1, pp. 148-150.
[74] Certamente, David Soumah, atrás referido.
[75] Matos Rodrigues era o inspector da PIDE na Guiné encarregado das informações. Seria substituído pouco depois do malogro da operação pelo inspector Fragoso Alas. Ambos já faleceram.
[76] AHU – MU/GM/GNP/069
[77] Alpoim Calvão – Honra e Dever – Uma Quase Biografia, p. 223
[78] Fernando Eduardo da Silva Pais (1905-1981).
[79] Entre Dezembro de 1970 e Julho de 1971, a área de operação desta força situava-se ao largo das costas da Guiné portuguesa, numa clara medida para deter ulteriores ataques que, por mar, fossem dirigidos contra a República da Guiné; a partir de Setembro de 1971, a força naval soviética concentrou-se junto a Conakry, em protecção a Touré e contra os seus opositores internos. Tacticamente, a protecção a Touré era uma operação defensiva mas a nível estratégico ia muito mais longe, pois permitiria ao PAIGC continuar as suas acções sem recear ataques por mar. Cf. Mário Matos e Lemos, O 25 de Abril, Uma Síntese, Uma Perspectiva, Lisboa, Editorial Notícias, s/d (1987).
[80] Quando chegou a data de ser entregue ao General Spínola a Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, 6 de Julho de 1973, a cerimónia foi marcada para uma das salas do Palácio de Belém, pois o regulamento prescrevia que tivesse que ser imposta pelo Chefe do Estado. Muito atento, Spínola chamou a atenção para o facto de que esse mesmo regulamento exigia que, no grau que lhe fora atribuído, o de Grande Oficial, a condecoração fosse entregue perante tropas em parada. Era verdade e, claro, assim se fez, embora o mais discretamente possível, aproveitando a abertura do ano lectivo no Colégio Militar. «Nem tudo quanto respeitou ao acontecimento foi do agrado do Chefe do Estado», escreveu américo Thomaz nas suas memórias. Também quando chegou o dia da posse no cargo de Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Silva Cunha, o Ministro da Defesa, não só proibiu que a cerimónia fosse transmitida pela Televisão, como não consentiu que a ela assistissem «muitos oficiais jovens» que queriam estar presentes, conforme o próprio Spínola se queixou a Marcello Caetano que lhe foi dizendo que não se tratava de desconsideração mas sim de uma aplicação de princípios, pois nada havia de mais natural do que tomar posse de um cargo.

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