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segunda-feira, 7 de junho de 2010

ÁS ARMAS







Insofismavelmente, a sua História continua a ser, no meio Militar-Naval, objecto de aturado estudo a par das Ciências[1] e da evolução de sofisticadas Tecnologias de que foi pioneira absoluta[2] em Portugal ou que hoje quase só são conhecidas na nossa Marinha de Guerra porquanto os poucos protagonistas civis foram forçados a abandonar as suas profissões ou a emigrar.

Assim, a sua entrega a pessoas ou entidades sem qualquer conhecimento directo daquela realidade específica, conduzirá inexoravelmente à total descaracterização da nossa Cultura Marítima, um Património Imaterial, com séculos de existência, que hoje, infelizmente, quase só pode ser quotidianamente cultivado no seio da nossa Marinha Armada.


A par, todos aqueles que profissionalmente (muitos deles no estrangeiro!) ou que em termos de lazer sabem que o Mar é, pela sua circunstância, gerador de uma Cultura específica, dificilmente aceitarão ver o património do Museu de Marinha entregue a quem, dele, terá, na melhor das hipóteses, um superficial conhecimento teórico sem sequer poder invocar um, minimamente convincente, sentimento de pertença.

Neste sentido, atenta uma partilha positiva de saberes, competências e recursos das entidades e organizações que tutelam, o Ministério da Defesa Nacional e o Ministério da Cultura,..
Uma partilha positiva de saberes? Saberes, sabe o Museu onde os encontrar, pois a pléiade de militares e civis que em todas as vertentes do conhecimento do Mar, da História (da nossa em particular), das Ciências, das Tecnologias, dos Direitos Comercial ao Internacional Marítimos e de tudo o mais, do Doutorado ao Artesão, todos são há muito consultados, acolhidos e ouvidos. E não estão necessariamente em nenhum daqueles Ministérios.

Quanto a competências, tem, o Museu de Marinha, desde há muitos anos consciência das suas fragilidades. Não obstante estar governamentalmente restringido o alargamento dos seus quadros, nomeadamente a profissionais da museologia, como estrangulada a reposição do seu pessoal em fim de carreira e constrangido a ver-se depositário de pessoal mutuamente estranho ao espaço, tem pelo contrário, concretizado importantíssimos aportes (remodelações da exposição permanente, exposições temporárias… das aquisições à sua loja temática) bem como estudos de projectos a concretizar.

Falamos dos Fuzileiros, a primeira Força Armada Regular Portuguesa, do centenário Corpo de Mergulhadores, ambos com relevantes intervenções de Serviço Público, bem como dos Patrimónios militares material por mostrar (artilharia, minas, torpedos…) e imaterial em que interagem os homens e as mulheres que servem na Armada e que assim se veriam entregues a civis de “carreira” que completamente desconhecem a Cultura Militar e ainda menos a Militar-Naval.

Nas áreas civis, na da Marinha Mercante, carecida do material desbaratado no desmantelamento das grandes companhias de navegação de Comércio ou nas inúmeras empresas de Pesca, após o precipitado abate da Frota Pesqueira, com a debandada daquelas profissões e até do país, dos seus protagonistas, como se sentirão entregues a gente de …terra?

Na Marinha de Recreio, de que tem recebido notáveis peças, sobretudo por doação[3], como se olharia para a sua entrega a gente que nada sabe do… Mar?

Galope, casco, picadeiro, estribos… aqui, nada têm a ver com cavalos! Cocha, cochado, coche, cocheiro, cochista, nada têm em comum excepto as quatro letras iniciais. Nem o que parece perceber tem algo a ver com o que pensa saber. A não ser, claro, que seja gente do… Mar!

Cego pode ser um nó porém, no Museu de Marinha, bem visível é a legendagem em Braille. Quantos Museus em Portugal já disporão dela?

Sobre os recursos? Serão, claro, os do Museu de Marinha pois, certamente, muito do espólio a ser envolvido nesse projecto museológico comum, não será cedido, nem deverá sê-lo, pelas outras possíveis entidades, como por exemplo a Carta de Pêro Vaz de Caminha ou outras peças que não mencionamos por inútil e para não prejudicar a sua preservação nesses acervos, certamente melhor conservados onde estão do que num Museu… partilhado!
Em busca dum fio condutor que à partida se cifra na pontual liquidação imediata do mais identitário Museu de Portugal, o Museu de Marinha, e à chegada num indefinido conjunto de belas intenções com contornos a definir no tal Protocolo Adicional ao estabelecido que afinal não será mais do que o rematar dos que já estiveram em cima da mesa e foram tidos como inaceitáveis por quem sabe e venera o que tem à sua guarda.
No íntimo de quem sente o peso de tamanha leviandade, isto é tido por proposta vexatória, senão mesmo provocatória!
Tal projecto destina-se a relevar a narrativa da Expansão Portuguesa, dos Descobrimentos Marítimos, e da presença de Portugal no Mundo, na medida em que a Marinha é indissociável dessa parte da História de Portugal.
Por bem, o que a nós nos move, tomamos o ambíguo verbo «relevar», no sentido positivo de “|| Dar relevo a,…||” e, logicamente, registamos a adulação porquanto a Marinha, certamente, sabe que é a legítima herdeira da Expansão Portuguesa que ocorreu, durante os Descobrimentos, por mar.
Da Marinha continuam, aliás, a ser oriundos alguns dos mais reputados investigadores da época dos Descobrimentos e das nossas Ciências Náuticas que se não esgotaram nesse período áureo, como, dentre outros notáveis pioneiros, Gago Coutinho o provou como historiador e… cientista.
Foi inequivocamente uma iniciativa de Portugal com o concurso de saberes acumulados mas, no caso presente, aqui originalmente tratados, desenvolvidos e acertadamente aplicados. Esse, o corpus das várias Ciências Náuticas, daquela época histórica, patentes no Museu de Marinha.
A Expansão de Portugal é, pode dizer-se, posterior aos Descobrimentos que decorreram dum objectivo central, a chegada à Índia, e dos laterais, resultantes dos desafios surgidos durante essa busca.
Mas essa Expansão, que temos muito mais por Cultural, não se fez só por mar, nem se esgotou nos Descobrimentos. É sobretudo fruto das mentes dos homens, letrados ou analfabetos, mas, com toda a certeza, fascinados que, por mar, chegavam onde nenhum outro Europeu alguma vez pisara e que, terra adentro, levaram e trouxeram o conhecimento que veicularam.
Sabendo que esteve prevista a transferência do espólio do Museu da Marinha para outra entidade e também a sua extinção tememos ser surpreendidos por um golpe soez desferido no Museu de Marinha.
De facto, recusamos frontalmente que se repita com o nosso Museu a tragédia que foi a administração civil do Aquário «Vasco da Gama»!


Lisboa, 4 de Junho de 2010

Rui Manuel Ramalho Ortigão Neves

Presidente da Direcção do
GRUPO DE AMIGOS DO MUSEU DE MARINHA



[1] O desfile de ilustres oficiais da Armada já falecidos; cientistas, investigadores, exploradores, académicos… e também de diplomatas, gestores, políticos…  cuja memória está por musealizar.
[2] Astronomia (Observatório), meteorologia, máquinas, electricidade (e electrónica), telecomunicações, farolagem e radiofarolagem…que aguardam espaço para musealização, bem como algumas colecções.
[3] Recordamos a imperativa condição de “criação” dum «Museu de Marinha» imposta testamentariamente por Maufroy de Seixas!

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