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quarta-feira, 9 de junho de 2010

ÁS ARMAS

Certas pessoas cujas decisões têm uma forte repercussão na nossa vida individual e colectiva — e de cuja escolha, diga-se em boa verdade, nos cabe uma boa parte da responsabilidade — têm das Forças Armadas em geral, e da Marinha em particular, uma visão tipo “Lego”.
Para elas, a instituição é qualquer coisa a que se pode tirar indiscriminadamente peças sem que o resultado final se altere grandemente.
Corpos que, por tradição e estatuto, carecem de poder reivindicativo são naturalmente mais permeáveis a alterações violentas, muitas vezes disfarçadas de reestruturações. Estão concebidos para cumprir, não para contestar. Cultivam o sentido do dever, coisa que, vista de longe (mas só muito de longe), alguns poderão confundir com apatia e subserviência.
Talvez por isso, os “leguistas” ignoram, aparentemente, o que seja o cimento de organizações como a Marinha. Habituados a privilegiar o individual em detrimento do colectivo, a visar o imediato fechando os olhos ao duradouro, encaram levianamente a filosofia, o espírito, a cultura da instituição.
Estranho? Talvez não: quem nunca chega a criar raízes, transitando de ministério em ministério, para terminar eventualmente num confortável conselho de administração, não tem tempo para compreender o pulsar da instituição que efemeramente tutela. Não distingue mandar de comandar.
Os “leguistas” vão, paulatinamente, fazendo o seu caminho. De forma tentada ou conseguida, vão extirpando hoje um museu, amanhã uma instalação fabril, depois um hospital, num futuro não demasiadamente longínquo uma base naval; pé ante pé, vão sapando capacidades que no seu conjunto são uma insubstituível mais-valia para a instituição e para o país, enchendo invariavelmente a boca com as estafadas palavras “rentabilização” e “modernização” para justificar esta progressiva desconstrução (por mero pudor, evito o termo “desmantelamento”).
O passo derradeiro, nesta linha de actuação, há-de ser a eliminação dos meios navais, porque já nada haverá que os sustente. Ora, sem meios navais, para que serve a Marinha? Peça a peça, desmontar-se-á no final todo o Lego, até que da construção inicial — que levou centenas de anos a criar — não reste mais que a memória.
Talvez esta seja uma visão pessimista. Haverá quem lhe chame até catastrofista. Oxalá tenham razão os que assim pensam. Gostaria muito de estar enganado. Francamente, porém, prefiro estar enganado a deixar-me enganar.
 

Este  post foi colocado no blog "A voz da Abita ", sempre uma referencia para esta guarnição.
Mas pela sua oportunidade, clareza e quiçá premonição , gostaríamos , com a devida vénia, que também ficasse nos arquivos da CACINE.
E parabéns ao autor, que se calhar não anda nada longe da verdade, e o mal é que ninguém dá caça ao abutre

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bom , sim senhor.

LGF