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terça-feira, 23 de novembro de 2010

MAPUTO,UÉ



Caro amigo
Faz hoje 10 anos mataram aqui em Maputo um jornalista que andava a investigar o maior escândalo financeiro de que o país tem memória: 14 milhões de euros desviados de um Banco. Carlos Cardoso morreu em Novembro, como em Novembro morreram dois dos que poderão ter estado implicados na sua morte.
Dez anos depois, data redondinha, muito se fala hoje, por aqui, de Carlos Cardoso. Inaugurou-se um memorial, fizeram-se sessões para o lembrar, amanhã uma televisão passa um debate sobre ele. Exalta-se o homem, o jornalista, a sua persistência em expor os podres do regime, em investigar o que mais ninguém tinha coragem. E os que o mataram, sem querer, fizeram dele um herói.
Foi mais ou menos por esta hora que te escrevo, há 10 anos atrás. Saía do jornal e era alvejado a tiro, dentro do carro de um amigo. Na altura farejava coisa grossa no caso do desvio do dinheiro e era daqueles que quando agarra não larga. Já tinha até falado nas notícias que escrevia sobre o escândalo de dois dos mais influentes homens de negócios de Moçambique da altura, Vicente Ramaya e Momade Abdul Satar, conhecido por Nini Satar.
Foi precisamente este último que, no julgamento do homicídio de Carlos Cardoso, acusou um filho do antigo Presidente de Moçambique Joaquim Chissano, Nympine Chissano, de estar envolvido no caso. Nympine Chissano nunca chegou a ser ouvido em Tribunal. Morreu em Novembro de 2007, de doença.
Cândida Cossa, empresária moçambicana também acusada de envolvimento, foi outra que nunca chegou a ser ouvida. Morreu este mês, Novembro, de doença. Passaram-se 10 anos depois da morte de Carlos Cardoso! Dez!
Seis pessoas foram acusadas e condenadas pelo envolvimento na morte de Carlos Cardoso. Uma delas, Aníbal dos Santos Júnior, carinhosamente conhecido por Anibalzinho (de nacionalidade portuguesa), acusado de chefe da quadrilha, se calhar o que apertou o gatilho.
Anibalzinho nunca foi ouvido em Tribunal porque quando do julgamento andava fugido. Está farto de fugir da cadeia, mesmo daquela considerada de alta segurança. Nini Satar disse que foi o filho de Joaquim Chissano o responsável pela primeira fuga de Anibalzinho, para que este não fosse ouvido no julgamento. O homem ainda no ano passado voltou a fugir, embora o Nympine já cá não esteja há três anos.
Tenho para mim que Anibalzinho vai ter muito cuidado quando chegar o mês de Novembro de cada ano. E se calhar ainda mais alguma gente que anda por aí, nas ruas de Maputo. Dez anos depois da morte do jornalista que, em 1985, tinha escrito um poema que acabava assim: À noite quando me deito, em Maputo, não preciso de rezar, Já sou herói”.
Não sabia o quanto herói haveria de ser, o Carlos Cardoso.
Como tu me dirias, um honesto e transparente abraço
Fernando Peixeiro

Fonte:Oriente Expresso

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