sábado, 8 de maio de 2010

SÓ CÁ

Durante os últimos meses, sábado, dia 8, manteve-se no horizonte como o possível momento de ruptura entre Raposo e a sua tutela, o Ministério da Cultura (MC). Com o tom a subir de ambos os lados, falou-se no afastamento do director - por iniciativa deste ou por vontade do MC. Nos últimos dias, porém, Raposo entregou o programa museológico preliminar que lhe estava pedido para a instalação do MNA e disse ao PÚBLICO que o próximo dia 8 "é apenas mais uma data num percurso".

"A Torre Oca não é o nó górdio deste processo. É uma questão importante, mas é cada vez mais simbólica do que efectiva", afirma o director do MNA, sublinhando, contudo, que ainda está "em reflexão".

Raposo considera que "houve uma evolução positiva no discurso [do MC]" e, por isso, entende que "as portas não estão fechadas". Mesmo assim, avisa que nos próximos dias haverá desenvolvimentos - como, já amanhã, a discussão na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura do projecto do Bloco de Esquerda que pede ao Governo a suspensão de todas as acções de transferência e criação de museus no eixo Ajuda-Belém até haver estudos definitivos e ser elaborado um plano estratégico.

Entretanto, o director do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), João Brigola, elenca prioridades. O que espera que aconteça dia 8? Em primeiro lugar, "que seja cumprida a ordem de serviço para a libertação da Torre Oca e entrega da chave". Em segundo lugar, "que o Luís Raposo continue a trabalhar connosco".

Só após a entrega da torre - respeitando o protocolo com a Marinha, que em troca entregará o edifício da Cordoaria, onde o MC pretende instalar o MNA - será constituída uma comissão para avançar com os estudos geotécnicos relativos à segurança do edifício e o lançamento do concurso de ideias de arquitectura, diz Brigola.

Plano para o futuro museu

"Considero aliciante poder acompanhar qualquer evolução na aplicação de um programa que eu próprio concebi", sublinha Raposo, num sinal claro de interesse em permanecer como director do MNA, cargo que ocupa desde 1996.

Apesar desse sinal, Raposo não encerra, contudo, definitivamente a discussão sobre o futuro do MNA, explicando, pelo contrário, que o programa que entregou no final da semana passada pode ser aplicado na Cordoaria ou noutro local. Um programa ambicioso: um espaço de 20 mil metros quadrados (nos Jerónimos, o MNA tem actualmente sete mil) para um museu que "não é um parque temático mas também não é um museu templo/arquivo".

O museu que propõe é, explica, tanto um curador de memórias (com a função de conservar e arquivar), como um justificador de memórias (através do estudo das suas colecções) e um divulgador de memórias (através das exposições, mas também de publicações). Para responder a estas três vertentes de actuação propõe um espaço em que um pouco mais de um terço são áreas públicas, outro terço semipúblicas e o último terço áreas reservadas.

A ideia é que haja uma zona de acesso livre e gratuito para as famílias, com um lado "mais lúdico e didáctico", e, já na área de acesso pago, galerias (por exemplo, para as obras-primas da arqueologia portuguesa) e exposições temáticas.

Ao museu (que integra laboratórios para os investigadores) deverão juntar-se alguns dos serviços de arqueologia que estão de momento espalhados pela cidade, como as arqueociências ou a biblioteca do Instituto Arqueológico Alemão, temporariamente a funcionar no Palácio da Ajuda.

Raposo admite ainda a criação de uma "reserva estratégica nacional de materiais arqueológicos" que neste momento estão "espalhados pelo país".




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